Mas evidentemente não hoje.

Por João Régis Magalhães

Tempos esquisitos. Quiçá tenebrosos.

Dias atrás, o ganhador do Nobel de Física (2004), David Gross, disse que a Humanidade pode não resistir aos próximos cinquenta anos. E explicou: o principal obstáculo não é científico, mas o tempo limitado que temos diante dos riscos atuais.

Benévolo, homem de fé alarmável, ao ler a notícia, ficou transtornado. Leu aquelas palavras como quem recebe, por engano, a própria sentença de morte. Suou frio e ajoelhou-se para pedir perdão pelos pecados. Mas estava tão fora de si que não conseguiu organizá-los em ordem cronológica. Chorou compulsivamente de dó de si mesmo.

Alguns bons momentos depois, um pouco mais calmo, Benévolo — ególatra de razoável discrição — releu o que dissera o físico. Fez as contas. Calculou a idade que teria dali a cinquenta anos e concluiu que, em meio século, não estaria mais por aqui para testemunhar o cataclismo.

Quase ficou satisfeito.

Concluiu, para seu alívio, que não seria afetado diretamente pela tragédia. Havia, afinal, uma razão superior para jamais ter tido filhos: agora tudo fazia sentido. Tampouco tinha sobrinhos. E, ademais, não deixaria legado relevante que justificasse preocupação com o futuro da espécie.

Sentiu-se até afortunado.

— Ufa. Sou mesmo um sujeito de sorte.

Já recomposto, relativizou a notícia. Talvez fosse mais uma dessas profecias bombásticas que fazem sucesso e depois mofam no almanaque das previsões furadas, ao lado do bug do milênio, do calendário Maia e da invasão alienígena de 2012.

Entretanto, persistia a dúvida: afinal, quem anunciava o fim não era um charlatão qualquer, mas um laureado com o Nobel.

Benévolo era emocionalmente volátil como papel de mercado em crise.

Voltou a refletir:

— E se… acontecer antes?

O cientista não precisou a data. Apenas dera um horizonte. Cinquenta anos era teto, não piso. Podia ser depois do almoço. Ogivas nucleares não trabalham com agenda. E, no mundo, convenhamos, há muito desequilibrado em posição de comando.

O desespero voltou.

— Será este o meu fim? Que será como a Rosa de Hiroshima?

Então, com solenidade trêmula, recitou Vinicius de Moraes:

“A rosa hereditária.
A rosa radioativa.
Estúpida e inválida…”

E, como todo ser em pânico munido de internet, Benévolo, ansioso por vocação, passou imediatamente a pesquisar sobre geopolítica, aquecimento global, inteligência artificial, colapso institucional, lado oculto da Lua, Supremo Tribunal Federal, Caso Master, Inquérito das Fake News e, pela similaridade léxica, acabou lendo até os anais da longínqua CPI do Fim do Mundo. A pesquisa foi tão extensa que chegou a entrar em um grupo de discussão para saber se Neymar vai ou não para a Copa — porque nada tranquiliza mais o ansioso do que ampliar metodicamente seu repertório de ameaças.

Ao fim de doze horas de pesquisa ininterrupta, concluiu, exausto, que o Apocalipse era certo. Restava apenas definir se viria por guerra nuclear, colapso climático, insurreição das inteligências artificiais ou provocado por fake news.

Sabia apenas que tudo acabaria.

Só não sabia quando, nem como.

Na indefinição, Benévolo — filósofo de janela eventual e ainda abalado pelas descobertas — abriu as cortinas e olhou o mundo que passava à sua volta, procurando respostas.

Os protagonistas mudaram. Os antigos interesses se dissiparam. Há muita coisa acontecendo que ainda não é compreendida. No país do futebol, por exemplo, mais gente sabe dizer o nome dos ministros do STF do que o dos jogadores da seleção canarinha, há pouco mais de quarenta dias do início de uma Copa do Mundo. Isso retrata bem a anomalia que vivemos.

Fechou e abriu os olhos algumas vezes. Respirou fundo. Ajustou a postura. Voltou a olhar pela janela.

E a realidade desmentia o apocalipse.

Alguns meninos corriam atrás da bola “com a alegria de um barco voltando” (Dolores Duran). Dois senhores conversavam animadamente sobre a escalação da seleção; um deles dizia que deixar Pedro fora da convocação seria a maior injustiça do futebol de hoje. Uma mulher entrava no salão de beleza com a certeza de que seria a próxima atração do pedaço. Um casal ria de alguma bobagem que só os apaixonados entendem. Um gato preto rodeava a lata de lixo do restaurante. E um passarinho cantava uma melodia que bem podia compor uma sinfonia.

Benévolo, sábio por exaustão, ficou parado ali, apenas observando, e concluiu:

Apesar de tudo — do iminente fim do mundo, das guerras insanas, dos governantes patológicos, da corrupção que mata e destrói o futuro de milhões, das constantes agressões ao meio ambiente e dos sinais de que a civilização talvez esteja improvisando o próprio velório — o mundo persiste em continuar sendo o que sempre foi.

Um lugar onde as crianças brincam; as pessoas conversam, convivem e ganham honestamente o pão de cada dia; a beleza encanta e espanta a tristeza; os casais se apaixonam e sonham com o futuro; as famílias se multiplicam; a arte brilha; o futebol move paixões; árvores são plantadas para um amanhã incerto; e se estuda inglês, espanhol e mandarim com a confiança de que dias melhores virão.

Benévolo, pensador de ocasião e metafísico de emergência, percebeu então:

Tudo na espécie humana sugere uma vocação extraordinária para a continuidade, mesmo quando os fatos recomendariam prudência.

Talvez a humanidade sobreviva há milênios menos por sabedoria do que por teimosia.

Talvez a esperança seja fruto dessa incapacidade estarrecedora de acreditar sinceramente no fim.

É da Natureza Humana!

Enquanto se acreditar no amanhã, o homem seguirá em frente.

Benévolo, temporariamente reconciliado com a existência, fechou a janela mais tranquilo.

O mundo talvez acabe, pensou.

Mas evidentemente não hoje.

Hoje ainda há no que acreditar

——————————————————————————————————–

João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

Facebook: @regismagalhaes

Instagran: @joao_regis_magalhaes

Related post

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *