Não vou me iludir com o hexa

Foi exatamente isso que eu disse.

“Esse ano eu não vou cair nessa. Não vou sofrer, não vou criar expectativa, não vou gastar dinheiro com Copa do Mundo. Já fui jovem, já me decepcionei. Estou vacinada.”

Duas semanas depois, eu estava pesquisando esmalte verde e amarelo, discutindo escalação como se fosse técnica da Seleção e tentando explicar para o gerente do banco por que havia uma cobrança suspeita de duzentos reais em figurinhas.

Porque a maternidade tem esse poder.

Você entra na Copa decidida a manter a dignidade e, de repente, tem um filho que precisa de um álbum. Aí precisa de algumas figurinhas. Depois precisa de mais algumas. E então surge uma urgência nacional: completar a página da Seleção.

O problema é que não existe “comprar algumas figurinhas”.

Existe apenas entrar em uma espiral financeira onde você vende a alma em troca do lateral esquerdo que nunca aparece.

Quando você percebe, está rodando bancas de jornal como uma investigadora particular.

— Moço, chegou figurinha nova?

— Tem repetida?

— Você viu alguém com a número 487?

A pessoa que, há pouco tempo, reclamava do preço do tomate agora está pagando pequenas fortunas por pacotinhos de papel colorido.

Mas não para por aí.

Porque tudo que é verde e amarelo passa a ser considerado item essencial.

Camiseta da Seleção? Precisa.

Boné? Precisa.

Bandeira para a janela? Fundamental.

Corneta? Infelizmente, precisa.

Meia verde e amarela? Aparentemente indispensável.

Quando você vê, a casa parece uma filial da CBF.

E você, que jurou não se envolver emocionalmente, já está fazendo contas para saber em quais dias os jogos vão cair e se dá tempo de preparar um lanche temático.

O mais curioso é que tudo começa pelos filhos.

Eles entram na sua vida com um álbum na mão e saem levando sua estabilidade emocional.

Você compra para eles.

Troca para eles.

Pesquisa para eles.

Mas, em algum momento, a linha desaparece.

Quando percebe, não é mais seu filho que está ansioso para abrir os pacotinhos.

É você.

E então chega o dia do jogo.

Você olha para as próprias mãos e encontra unhas pintadas de verde e amarelo.

A mesma pessoa que semanas atrás repetia:

— Não vou me iludir com o hexa.

Agora está gritando para a televisão, usando a camisa da sorte e convencida de que levantar do sofá aos 32 minutos do segundo tempo pode alterar o destino da partida.

A Copa do Mundo e a maternidade têm algo em comum: ambas nos fazem perder completamente a noção.

E talvez essa seja a maior hipocrisia de todas.

Nós juramos que não vamos entrar na onda.

Juramos que não vamos gastar dinheiro.

Juramos que não vamos criar expectativas.

Mas basta aparecer um filho pedindo figurinhas e um jogo da Seleção no horizonte para voltarmos a acreditar.

No hexa.

Na sorte.

E que aquela figurinha difícil vai finalmente sair no próximo pacotinho.

Spoiler: não vai.

Mas você vai comprar mais cinco só para conferir. 😄🇧🇷⚽💛💚

Vai BRASIL!!!

*Artigo escrito por Julyana Almeida

Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.

Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

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