O grupo de mães da escola: entre o “bom dia” e a Terceira Guerra Mundial
Toda mãe sabe que existe um lugar onde a paz mundial pode acabar em menos de cinco minutos: o grupo de WhatsApp da escola.
Tudo começa muito bem.
Alguém cria o grupo, coloca uma foto bonitinha, dá um nome simpático e manda aquela primeira mensagem:
“Bom dia, mamães! Criei o grupo para trocarmos informações sobre nossos filhos. ❤️”
Pronto. Nasce uma comunidade.
Nos primeiros dias, é tudo lindo. Uma pergunta sobre o horário da saída, outra sobre o uniforme, uma foto da atividade escolar e dezenas de coraçõezinhos.
“Obrigada, querida!”
“Imagina, estamos juntas!”
“Que Deus abençoe nossos pequenos!”
Parece até que a humanidade finalmente encontrou o caminho da paz.
Mas é preciso ter cuidado. A tranquilidade no grupo de mães é um fenômeno passageiro, como promoção de supermercado e criança que promete dormir cedo.
Porque basta alguém perguntar:
“Gente, amanhã precisa levar cartolina?”
E começa.
Uma responde que sim. Outra diz que a professora não avisou nada. Uma terceira manda o print de uma mensagem recebida na semana anterior. A quarta pergunta se é cartolina branca ou colorida.
A quinta não sabe do que estão falando, mas manda:
“Também estou na dúvida!”
Pronto. Agora são 47 mensagens, três áudios de dois minutos e uma mãe perguntando se alguém pode resumir tudo porque acabou de sair do trabalho.
E ninguém resume.
Porque, enquanto ela estava trabalhando, o assunto já evoluiu da cartolina para a responsabilidade dos pais na educação dos filhos.
O grupo não tem pauta. Tem temporadas.
E existe uma personagem que nunca pode faltar: a mãe detetive.
Ela sabe o que aconteceu na sala, quem sentou ao lado de quem, qual criança emprestou o lápis, quem não devolveu a borracha e, se deixar, descobre até quem começou a confusão no recreio.
“Não quero me meter, mas fiquei sabendo de uma coisa…”
Essa frase nunca termina em paz.
Nunca.
É o equivalente materno a ouvir a música de suspense de um filme. Você sabe que vem problema, mas não consegue parar de ler.
Tem também a mãe que manda áudio.
Áudio de três minutos para dizer que a professora pediu uma garrafa PET.
Três minutos!
Dava para gravar um podcast, contar a história da garrafa desde a fabricação e entrevistar o fabricante.
E, claro, existe a mãe que responde ao áudio com outro áudio.
Quando você percebe, está ouvindo uma série documental sobre reciclagem, com participação especial da coordenação pedagógica.
Mas o verdadeiro teste de resistência emocional acontece quando alguém questiona alguma decisão da escola.
“Eu acho um absurdo!”
“Na minha opinião, deveriam ter avisado antes!”
“Com todo respeito, não concordo!”
A expressão “com todo respeito” merece um estudo científico. Porque, em determinados grupos, ela funciona como o sinal de largada de uma maratona de indignação.
De repente, aparecem opiniões, prints, relatos, testemunhos e mães que estavam há seis meses sem escrever uma única palavra.
Aquelas que nunca deram nem um “bom dia” surgem com um posicionamento firme, três argumentos e uma pergunta retórica.
É o milagre da participação escolar.
E não podemos esquecer a organização dos eventos.
A professora pede uma contribuição para a festinha.
“Quem pode levar um bolo?”
Silêncio.
“Precisamos de suco também.”
Silêncio maior.
“Alguém consegue ajudar?”
Nesse momento, 32 mães visualizam a mensagem simultaneamente.
Trinta e duas.
É quase um experimento social sobre a natureza humana.
Até que uma corajosa escreve:
“Eu posso levar os copos.”
E outra responde:
“Eu levo os guardanapos!”
Pronto! A esperança renasce. A humanidade ainda tem jeito.
Até alguém perguntar quem vai levar o bolo.
Porque os copos estão garantidos. Os guardanapos também. Mas o bolo, aparentemente, depende de uma intervenção divina.
E tem a mãe que sai do grupo.
Essa merece um capítulo à parte.
Ela sai discretamente, sem despedida, sem explicação, sem comunicado oficial.
Mas o WhatsApp faz questão de anunciar sua partida como se estivesse divulgando a saída de uma ministra do governo.
“Fulana saiu.”
Imediatamente, alguém pergunta:
“Gente, por que ela saiu?”
E pronto.
O assunto deixa de ser a reunião escolar e passa a ser a saída da fulana.
Será que ficou chateada? Será que mandaram alguma coisa no privado? Será que saiu sem querer? Será que vai voltar?
Minha senhora, talvez ela só quisesse parar de receber 86 notificações enquanto tentava fazer o jantar.
Mas o grupo não aceita explicações simples. Tudo precisa de uma investigação.
No fundo, o grupo de mães é uma representação muito fiel da própria maternidade: uma mistura de amor, preocupação, boa vontade, cansaço e uma necessidade coletiva de saber se amanhã é para levar o brinquedo ou a garrafa PET.
A gente entra para acompanhar a vida escolar dos filhos e acaba acompanhando também as emoções, as opiniões e os conflitos de dezenas de adultos.
E, mesmo reclamando, continuamos ali.
Porque, quando alguém pergunta o horário da apresentação, somos as primeiras a responder.
Quando uma mãe precisa de ajuda, aparece outra para oferecer.
Quando uma criança fica doente, chegam mensagens de carinho.
Quando alguém esquece o material, sempre existe uma mãe disposta a procurar uma solução.
Talvez seja isso que faça o grupo valer a pena, apesar dos áudios intermináveis, das mensagens fora de hora e das discussões sobre a cor da cartolina.
No fim, somos mulheres tentando acertar, cuidar, participar e não esquecer o prazo do trabalho escolar — que, curiosamente, quase sempre é lembrado pela criança às dez da noite.
E, se tudo der certo, amanhã o grupo estará tranquilo.
Alguém vai mandar um “bom dia”.
Outra vai responder com um coração.
Uma terceira vai perguntar se hoje tem aula de educação física.
E nós vamos acreditar, por alguns segundos, que a paz voltou.
Até aparecer a mensagem:
“Gente, vocês ficaram sabendo do que aconteceu?”
Silencie as notificações, respire fundo e pegue seu café. A próxima temporada acaba de começar.

*Artigo escrito por Julyana Almeida
Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.
Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae