O lugar onde eu deixei a meninice
João Régis Magalhães
Devia ter doze ou treze anos quando perdi minha meninice.
Desde que meus pais se mudaram do Rio para João Pessoa, na segunda metade dos anos 60, eu costumava passar as férias de fim de ano na casa de minha avó materna, em Parangaba, bairro de Fortaleza — um casarão construído pelo meu avô antes da Segunda Guerra, em um terreno da família há mais de um século, onde minha mãe viveu parte da infância e da adolescência.
O que sei é que eu adorava aquele período do ano. A casa cheia, as vozes conhecidas, os primos, as tias, os tios, minha avó — tudo junto, tudo vivo. Tenho lembranças luminosas daqueles dias. Ao longo do ano, eu ficava ansioso pela chegada da viagem. Depois do São João, então, já começava a contar os meses, os dias.
Meu pai dirigia uma Rural Willys marrom pelos quase 700 quilômetros que separam João Pessoa de Fortaleza. A viagem era longa, arrastada, muitas vezes monótona. Saíamos com o dia nascendo e fazíamos uma parada em Mossoró, no Rio Grande do Norte, na hora do almoço, para fugir do sol a pino. Parada longa. Minha mãe não achava prudente seguir viagem logo depois de comer, e meu pai aproveitava para tirar uma soneca em um quarto de hotel. O carro ia cheio: meus pais, quatro filhos — um ainda de colo —, duas ajudantes, Zenilde e Lúcia, e malas para um mês inteiro.
Seguíamos então pela estrada, com o vento quente entrando pelas janelas, levantando poeira, endurecendo o cabelo e ressecando a pele. Meu pai não costumava passar dos 80 por hora — por precaução e pela potência do carro — e, em muitos trechos, a estrada ainda era de terra. Não era uma viagem confortável, longe disso. Mas havia uma alegria quieta, dessas que vão crescendo por dentro à medida que a gente se aproxima do destino.
Por volta das seis da tarde, passávamos por Pacajus — lembro das badaladas do Angelus na Igreja Matriz. E, pouco antes das oito, chegávamos, já noite fechada — No Nordeste, o sol se esconde cedo, mesmo no verão.
Na casa da minha avó, eu dormia no quarto do tio Paulo, estudante de arquitetura e irmão caçula da minha mãe. Acordava tarde para os padrões da casa — depois das oito — quando a mesa do café já estava quase vazia. O café começava cedo e era farto: pães, bolos, queijos, tapiocas, frutas. Eu comia pouco. Nunca gostei de leite. Uma banana, pão com manteiga e café resolviam.
Depois, corria para o quintal — um mundo inteiro, com mais de dez mil metros de árvores frutíferas. Mangueiras por toda parte: rosa, espada, manguito. Cajueiros, sapotizeiros, cajazeiros e pés de ciriguela. Mas as mangas, frutas da estação, que me renderam meus primeiros trocados.
Eu colhia com cuidado, lavava e deixava secar ao vento. Aprendi cedo que fruta bonita vende melhor. Depois do almoço, organizava tudo no muro baixo da frente da casa e esperava os fregueses. Foi ali que aprendi a pechinchar — a pedir mais para poder ceder, a ler o olhar de quem compra e a sentir a hora de fechar negócio. Às vezes, parava um carro e levava tudo de uma vez. Eu recolhia o dinheiro — notas miúdas, amassadas — e guardava no bolso com uma satisfação difícil de explicar.
Anos atrás, reencontrei uma prima que ainda mora em Parangaba. Ao me ver, ela recordou:
— Quando eu passava em frente à casa da tia Heloísa e te via vendendo manga, pensava: esse menino ainda vai ser um grande comerciante.
Não fui. A vida me levou por outros caminhos.
Naquele tempo, porém, o dinheiro tinha destino certo. À noite, depois do jantar, eu seguia para a quermesse — a festa do padroeiro da Igreja Matriz da Parangaba, que há poucos anos descobri se chamar Paróquia Bom Jesus dos Aflitos.
E ali, tudo mudava. As luzes, o barulho, a roda-gigante girando devagar contra o céu escuro, as barracas, os jogos — tudo pulsava. Mas não era só a festa. Era o que começava a acontecer dentro de mim.
Eram as meninas. Franciscas, Marias, Rosas — nomes simples para um território completamente novo. Um pouco mais velhas, um pouco mais seguras, com um jeito de olhar que já não era de brincadeira. Elas sabiam — ou pareciam saber — de coisas que eu ainda estava começando a descobrir.
Eu chegava com o dinheiro no bolso e uma coragem improvisada. Pagava um ingresso na roda-gigante, oferecia um refrigerante, puxava conversa. Às vezes, um riso. Às vezes, uma aproximação. E, quando percebia, já estava de mãos dadas — como se aquilo sempre tivesse sido natural.
Mas não era. Nada daquilo era. E era justamente isso que tornava tudo tão intenso.
Aos poucos, a gente se afastava das luzes da festa e caminhava até a beira da linha do trem. O barulho ficava para trás, o silêncio ganhava corpo, o ar parecia mais denso. E o luar deixava tudo mais próximo do que devia.
Foi ali que algo em mim mudou — não de repente, mas devagar, quase imperceptível, do jeito que a gente só entende muito tempo depois. Elas me conduziam com uma naturalidade desconcertante. Eu seguia, aprendia, descobria. Havia curiosidade, um tipo novo de coragem, como se eu estivesse atravessando uma fronteira sem saber se havia volta.
Aos poucos, a infância já não me servia mais por inteiro.
Eu voltava para casa em silêncio, caminhando a passos largos e firmes, sozinho, imerso em meus pensamentos: o bolso vazio, o coração disparado, o corpo ainda trêmulo e satisfeito, e um leve cheiro de perfume barato grudado na pele — prova de que tudo aquilo tinha sido real.
Naquelas noites, sob a luz do luar da Parangaba, eu fui deixando de ser apenas menino.
Anos depois, voltei, mas não encontrei nada — ou melhor, encontrei tudo diferente. A casa da minha avó virou uma agência bancária. O amplo terreno do quintal foi dividido, loteado. O local da quermesse escureceu sob um viaduto invasivo. A linha do trem perdeu seu mistério entre concreto e pressa. Construíram um grande shopping.
Tudo estava lá e, ao mesmo tempo, nada estava.
Fiquei parado, tentando reconhecer alguma coisa — uma sombra, uma fachada, um rosto conhecido.
Mas a verdade é simples: aquele tempo acabou. Não há mais mangas no quintal. As noites de quermesse já não são as mesmas.
E a Parangaba que eu conheci — com seus mistérios, seus cheiros e suas noites sob o luar — essa não existe mais. Nem o menino que um dia fui.
Ficaram na memória.
——————————————————————————————————–
João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
Facebook: @regismagalhaes
Instagran: @joao_regis_magalhaes
