O Preço da Ilusão
O best-seller de Dale Carnegie, lançado em 1926 e ainda muito atual, retrata a necessidade de atentarmos para o nosso próprio valor como indivíduos. Uma de suas passagens cita que um garoto queria comprar um apito. Para tanto, guardou todo o dinheiro que ganhou com trabalhos informais. Quando “encheu” seu cofrinho, foi até a loja e entregou o conteúdo ao vendedor em troca do apito. Não sabia o quanto havia no cofre nem o preço do apito. Ele apenas o queria. E o obteve. A soma auferida pagaria por diversos apitos, mas o menino já saíra apressado, feliz com a aquisição.
Nos tempos sombrios em que vivemos, sequer paramos para pensar no quanto estamos pagando por nosso “apito”. Quanto nos custa o prazer menor e, quase sempre, momentâneo, em termos de vida, de tempo, de dignidade? E, frequentemente, por vontade própria, por decisão baseada em informações falsas, continuamente reiteradas por quem tenha interesse em nos “vender” utopias, ilusões.
O que se viu numa sessão da mais alta corte judiciária do Brasil chegou ao absurdo de ouvirmos, em rede nacional, que não se deve “expor um colega”, “ainda que ele esteja envolvido em crimes”, considerando que “até na Máfia existe ética”. É assustador que um ministro use como referência de justiça e hombridade a Máfia. E, claro, quem percebe o futuro inóspito para o qual se caminha a passos largos se espanta ao ver tanta gente que ainda defende tais barbaridades. Especialmente porque quem sofrerá, como de hábito, as nefastas e mais contundentes consequências são eles mesmos, os menos aquinhoados. Os doutrinados a não buscar seus direitos, a se acostumar com a miséria distribuída e a se acomodar na pobreza.
Essa alienação coletiva foi traduzida com precisão cirúrgica por Zé Ramalho, na clássica canção “Admirável Gado Novo”(1979). Em um de seus versos mais cortantes, o compositor dispara uma incômoda chamada de consciência: “Repare: a multidão precisa de alguém mais forte a lhe guiar”. É o retrato definitivo da nossa crônica dependência de falsos líderes populistas, tiranos e figuras ditatoriais. Ao abdicarmos do pensamento crítico, entregamos a condução das nossas vidas a políticos que prometem proteção, mas que apenas nos conduzem, dóceis e marcados, rumo ao abatedouro de nossas próprias liberdades.
As PcD, desde longa data, por exemplo, vêm buscando autonomia, respeito e participação social. As ações do Dr. Ludwig Guttmann abriram novas possibilidades para o desenvolvimento e sentimento de pertença a ex-combatentes; sobreviventes da poliomielite e de outros vetores causadores de deficiência. No entanto, o que se percebe é que importante percentual desse segmento vem optando pelo óbolo, pela migalha.
E não apenas esse grupo. A cultura do comodismo e da inaptidão, insuflada por alguns meios de comunicação, cooptados pelas verbas de propaganda, desestimula o esforço, o aprendizado, o conhecimento, o senso de responsabilidade.
Há informações disponíveis, gratuitas, à mão, mas a endorfina propiciada pelos conteúdos rasos se impõe por ser, a curtíssimo prazo, mais palatáveis. Descartáveis.
Não se trata de um mal desses tempos. A história se repete em um ciclo real e triste. Parentes e servos de Faraós, no antigo Egito se voluntariavam para serem enterrados com seu líder; parte da cúpula do monstro Hitler cometeu suicídio para acompanhá-lo; venezuelanos, coreanos do norte, cubanos e muitos outros povos precisaram sofrer consequências desumanas, cruéis, até enxergarem o mal instalado por suas escolhas apaixonadamente equivocadas.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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