O relatório de sustentabilidade como sintoma, não como tarefa

Por Mariana Borges

Novembro chegou e, com ele, a mesma cena que se repete em quase toda empresa brasileira que publica relatório de sustentabilidade: alguém está correndo atrás de números que deveriam estar prontos desde junho.

Indicadores de emissões que ninguém acompanhou durante o ano. Dados de diversidade que o RH não consolidou. Consumo de água e energia espalhados em três planilhas diferentes, cada uma com um critério. E a pergunta que sempre aparece na véspera: “quem tem o dado de resíduos do segundo trimestre?”

Se você trabalha com ESG, reconhece essa cena. Ela não é um problema de organização pessoal. É um sintoma.

O que o relatório revela sobre o resto do ano

O relatório de sustentabilidade tem uma característica curiosa: ele é o único documento da empresa que expõe publicamente a qualidade da gestão do ano inteiro. Um balanço financeiro passa por auditoria e por uma estrutura contábil consolidada há décadas. O relatório de sustentabilidade, não. Ele mostra, sem filtro, se a empresa tinha processo ou se tinha apenas boa vontade.

Quando os dados não existem em novembro, o problema não é novembro. É que a empresa nunca decidiu medir. Quando os dados existem mas não conversam entre si, o problema é que cada área escolheu seu próprio critério. Quando os dados existem, conversam, mas não contam nenhuma história, o problema é que a empresa está reportando para cumprir tabela, não para gerir.

Em todos os três casos, o relatório é o termômetro. Ele não causa a febre. Ele mostra que ela existe.

Por que isso se repete todo ano

A causa quase sempre é a mesma: o relatório é tratado como projeto, não como rotina.

Projeto tem começo, meio e fim. Tem cronograma, tem time dedicado, tem entrega. E, quando termina, todo mundo respira e volta para o trabalho normal. Aí, em janeiro, ninguém está pensando em indicador. Em março, ninguém está pensando em indicador. Em agosto, alguém lembra que o relatório existe. Em novembro, o ciclo recomeça.

Rotina funciona diferente. Rotina tem dono, tem frequência, tem registro. O dado é coletado no mês em que acontece, não no mês em que é necessário. A área que gera o dado sabe que precisa entregá-lo, sabe em que formato e sabe para quem. E o relatório, no fim do ano, é apenas a consolidação de algo que já estava organizado.

A diferença entre as duas abordagens não é de esforço. É de arquitetura. Empresas que sofrem em novembro não trabalham menos do que as que não sofrem. Elas trabalham no momento errado.

O que separa uma empresa da outra

Empresas que publicam relatório sem sofrimento têm três coisas em comum, e nenhuma delas é ter uma área de sustentabilidade grande.

A primeira é ter clareza sobre quais temas importam, que orienta o que medir e o que ignorar. Sem isso, a empresa tenta medir tudo e não consegue medir nada com consistência.

A segunda é um dono por indicador. Não um comitê. Uma pessoa. Alguém que responde pelo número, que sabe de onde ele vem e que é cobrado por ele ao longo do ano. Indicador sem dono é indicador que aparece em novembro, com o valor que der.

A terceira é uma rotina de coleta que não depende de lembrança. Um calendário fixo, um formulário padrão, um prazo que se repete todo mês ou todo trimestre. Simples, chato e eficaz.

Nada disso é sofisticado. É gestão básica aplicada a um tema que, por muito tempo, foi tratado como comunicação.

O que fazer com isso agora

Se você está no meio do fechamento deste ano, não tente consertar o processo em novembro. Termine o relatório com o que tem, registre onde estão os buracos e use esses buracos como argumento para a conversa de janeiro.

Se você está planejando o próximo ciclo, a decisão mais importante não é qual framework adotar. É definir, antes de qualquer coisa, quem responde por cada indicador e com que frequência o dado é coletado. O resto vem depois.

E se a sua empresa ainda não publica relatório, mas está começando a ser cobrada por clientes, bancos ou cadeia de valor, saiba que o erro mais comum é começar pelo documento. O documento é a saída. A entrada é a rotina de dados.

O relatório de sustentabilidade não mede o quanto a empresa se importa. Mede o quanto a empresa conseguiu transformar intenção em processo. E isso, infelizmente, só fica visível quando o ano já acabou.

Artigo escrito por Mariana Borges, fundadora da Move’n Up inteligência em Gestão Sustentável

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