O verso da moeda.

Estamos revivendo a Era das promessas vazias, cheias de palavras doces e minuciosamente pensadas para encantar e enganar num mesmo tom amigável de quem acompanha um “amigo” em direção ao abismo ou ao cadafalso. É cíclico. A cada dois anos escolhemos aqueles que nos representarão na luta diária pela vida, por oportunidades de desenvolvimento e por dignidade, ou seja, para administrar o grande condomínio que é o Estado.

Os três temas preferenciais são: Educação, Saúde e Segurança. Todos prometem muito, mas pouco se faz. Não porque alguns, num primeiro momento, não queiram, com todas as suas forças, cumprir suas promessas. O problema é a imensa dificuldade de mudar, corrigir o sistema. Uma barra de aço duríssima não pode vencer o ambiente de uma fornalha. Além disso, as enormes facilitações para o desvio de propósito, para tratar o erário como conta particular, para aceitar conchavos do banditismo que se instalou em diversos pontos da Administração Pública, é quase inelutável.

Nesse burburinho de iniquidades, as PcD se tornam alvos prioritários. Talvez porque, segundo o próprio IBGE (2022), este recorte social tenha uma faixa de analfabetismo acima de 12%, enquanto o restante da população na mesma faixa etária, 15 a 29 anos, fica abaixo de 2%. Essa informação não é novidade, pois, historicamente, se observa diferenças contínuas nessa comparação. Afinal algumas deficiências intelectuais, por enquanto, são impeditivas para a alfabetização.

Outro dado importante é que, proporcionalmente, a pobreza é mais incisiva entre as PcD, atingindo a preocupante taxa acima de 61% desse contingente. Especialmente entre o público formado por crianças e adolescentes PcD. Nesses grupos o futuro é ainda mais insólito por outro parâmetro analisado: mais de um terço desses menores, em risco social, vivem sem a figura paterna em seu núcleo familiar.

Quais são os representantes desse enorme contingente de pessoas? Quem fala por esses que, em sua maioria enfrentam, além da própria deficiência, a pobreza, o abandono e barreiras de toda ordem? As deficiências por si só constituem um obstáculo penoso à autonomia e independência e, ainda assim, há aqueles que querem arrancar-lhes os poucos direitos conquistados, mas desviam o olhar dos inúmeros casos de corrupção generalizados que a mídia nos atira diariamente ao rosto.

A resposta indica que o problema vem se ampliando e consolidando. Em 2020, o número de vereadores PcD, esse legislativo local, mais próximo do cidadão, sofreu uma redução superior a 25%, de 522 para apenas 391; e nas prefeituras, a redução foi próxima de 60%, de 56 para 24 prefeitos PcD. A máxima empregada pelas PcD em suas manifestações “Nada sobre nós sem nós” fica relegada apenas à condição de slogan. A representatividade está reduzida. E é uma tendência.

Quando o genial Belchior, em 1978, lançou o sucesso “Pequeno perfil de um cidadão comum”, parecia antever um futuro em que a honestidade e honradez caminhavam, a passos largos, para um destino cruel, quando dizia: “Era feito aquela gente honesta, boa e comovida que caminha para a morte pensando em vencer na vida”.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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