Sem Precisar Explicar
João Régis Magalhães
Era um pouco antes das oito horas da noite quando Benévolo ligou a televisão e sintonizou o canal que iria transmitir em minutos o primeiro debate entre os candidatos a presidente. Ele não estava nem um pouco animado. Na véspera, o Flamengo perdeu a chance de assumir a liderança do Brasileirão, e isso o deixou de tremendo mau humor. Para piorar, os dois candidatos que lideravam as pesquisas decidiram não participar do debate na Bandeirantes.
— Esse é o debate dos ausentes!
Benévolo coçou a cabeça e prosseguiu irritado.
— Fujões ou estratégicos? Não sei ao certo. Devem ter lá suas razões. Estratégia, pesquisa, marqueteiro, conselho de mãe… Mas quem quer ser presidente da República não pode fugir justamente da hora de explicar por que acha que merece o emprego. Acho que é no mínimo um tremendo desrespeito com o eleitor.
Ele foi até a cozinha e pegou um copo de água. O clima estava muito seco em Brasília.
— Não sei nem porque estou aqui. Os debates são cada vez mais chatos e enfadonhos! Cheio de regras e limitações. Um verdadeiro show de horrores…
O debate começou. Apenas três candidatos presentes. Outros três, ausentes. De última hora, o ex-governador de Minas Gerais informou a sua não participação.
Benévolo não entendeu.
— Será que ele é candidato mesmo ou só finge ser?
— Era uma das poucas oportunidades que o Zema teria para começar a ser conhecido fora de Minas. O partido dele nem direito ao horário eleitoral gratuito tem. Vai saber?
O debate seguiu sem que ninguém de fato debatesse. Apenas pura verborragia. Benévolo fez um esforço para se manter com os olhos abertos. Estava difícil não cair nos braços de Morfeu.
— Nem o Caiado estava conseguindo dizer algo de interessante! Achei que ele ia nadar de braçada. Pelo jeito, resolveu boiar. Uma lástima!
Benévolo deixou a sala de televisão e voltou a encher o copo de água. A umidade do ar naquele domingo ficou na casa dos doze por cento. Um clima de deserto.
Foi até o seu escritório e ligou o computador. Navegou pelos principais sites de notícia. As avaliações eram quase unânimes. Pelo visto, todos tinham assistido ao mesmo debate.
— Tempos difíceis. A gente sabe em quem não votar de jeito nenhum, mas fica na dúvida em escolher qual é a opção menos ruim.
Fechou o computador e permaneceu alguns segundos diante da tela apagada, como se esperasse que dali ainda pudesse sair alguma coisa. Levantou-se. Deu alguns passos e parou. Olhou em volta. Não encontrou lugar onde ficar.
Atravessou a casa em passos lentos e foi até o quintal. A lua crescente pairava sobre o céu seco de Brasília. Uma ou outra estrela resistia à claridade da cidade. Permaneceu ali por alguns minutos. Ainda não conseguira voltar à calma. Respirou fundo e soltou o ar lentamente. Uma, duas, três vezes. Sentiu-se melhor e resolveu entrar.
Não foi para o quarto. Apesar de mais calmo, não queria ir dormir. Ficou na sala e sentou-se na poltrona predileta. Alcançou o controle remoto. Apertou um botão, depois outro. Nada. Devolveu-o ao seu lugar. Cogitou ligar o som, mas desistiu antes mesmo de escolher uma música.
Ficou ali, quieto, olhando para lugar nenhum.
Lá fora, a noite era fria e silenciosa. Dentro de casa, Benévolo continuava às voltas com os próprios pensamentos. E parecia não chegar a lugar algum.
Tentava entender o que estava acontecendo naquela eleição. Nunca se sentira tão mal representado. Só tinha uma certeza: naquela noite, uma grande oportunidade havia sido perdida.
Franziu a testa.
— É no debate que a gente descobre se o sujeito tem mesmo laranja para vender ou só montou uma barraca bonita. Porque é no contraditório que a conversa muda de figura.
Pensou mais um pouco.
— Os candidatos querem ser escolhidos, mas fogem justamente dos lugares onde a gente pode conhecê-los de verdade. Aí fica difícil!
Fez uma pausa. Cobriu o rosto com as duas mãos.
— Embora… talvez isso não seja bem assim.
Baixou as mãos e deu um muxoxo.
— Numa eleição polarizada como esta, talvez alguns não façam questão mesmo de ser muito conhecidos. Talvez não queiram explicar o inexplicável. Às vezes o passado condena, é melhor mesmo ficar escondido. Quanto mais o eleitor sabe, mais motivo encontra para rejeitar.
Ficou alguns segundos em silêncio.
— Pelo andar da carruagem, se nada mudar, esta eleição vai acabar entre os que já estão na frente. Vence o menos rejeitado. Talvez seja por isso que fogem dos debates, e pouco se sabe sobre o que realmente pretendem fazer. Porque tem muita coisa que não vai agradar. E como tem!
Levantou-se da poltrona e voltou ao quintal. A lua estava mais alta e a temperatura caía. Sentiu frio. Entrou em casa, pegou um casaco e foi para o escritório.
Voltou ao computador. Conferiu a agenda eleitoral. Estava programada para os próximos dias uma série de entrevistas com os candidatos por um grande grupo de comunicação. E no final de semana, começariam os chamados programas eleitorais gratuitos.
— Gratuitos para quem? Porque alguém vai pagar essa conta. E não é barato!
Retomou o raciocínio anterior.
— Quero ver se os campeões de rejeição vão abrir mão do horário nobre da TV e do rádio para serem sabatinados por jornalistas. Não creio, mas…
De repente, Benévolo sorriu.
— Não. Aí eles aparecem.
Refletiu por alguns segundos e corrigiu:
— Aparecer, eles aparecem. Desde que o ambiente seja controlado. Mas…
Sorriu de novo.
— O suficiente para ganhar votos e pouco o bastante para não perder eleitores. Simples assim.
Fez uma pausa.
— Sem precisar explicar. Explicar pode acabar revelando. Melhor dissimular.
Benévolo continuou olhando para a tela do computador. O sorriso desapareceu aos poucos.
— Mas também… alguém anda querendo explicação?
Pensou nos amigos, nas conversas de família, nas redes sociais. Cada um já tinha o seu candidato, ou pelo menos o candidato que queria derrotar. Poucos pareciam realmente interessados em ouvir o que o outro tinha a dizer.
Deu um suspiro.
— Talvez seja por isso que eles possam aparecer tão pouco. A gente já escolheu antes de saber. Pouco importa se…
Ficou alguns segundos em silêncio.
— E depois passa o resto da campanha tentando descobrir não se escolheu certo, mas uma boa explicação para justificar a escolha. Por pior que tenha sido.
Fechou o computador.
Dessa vez, não sentiu vontade de procurar outro lugar da casa.
Ficou ali mesmo, diante da tela apagada.
E pensou que, talvez, o problema não fosse apenas os candidatos não precisarem explicar.
Talvez nós também não quiséssemos saber.
Afinal, quem quer saber demais corre o risco de descobrir o que não queria.
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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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