Socorro! Minhas filhas foram para a casa do pai. E agora?

Minhas filhas estão na casa do pai.

Repito, para ver se meu cérebro assimila a informação: minhas filhas estão na casa do pai e eu tenho um fim de semana inteirinho pela frente.

Inteirinho.

Sem alguém me chamando do outro cômodo. Sem a tradicional pergunta “mãe, o que tem para comer?”. Sem precisar organizar horários, conferir compromissos, lembrar de alguma coisa que elas esqueceram e, provavelmente, me culpar por algo que nem aconteceu.

E agora? O que eu faço?

Nunca cheguei nessa fase do jogo! Cadê o manual? Quem foi a criatura que inventou essa modalidade da maternidade e se esqueceu de explicar as regras?

A separação, que nunca deveria ser a primeira opção de ninguém, acontece todos os dias com milhares de famílias. E, quando acontece, a maternidade ganha uma configuração diferente. Algumas mães conseguem dividir os cuidados com os pais dos filhos, estabelecer uma rotina e, aos poucos, encontrar seu próprio ritmo. Outras enfrentam uma jornada praticamente solitária.

Não existe uma fórmula perfeita. Existe a vida acontecendo, com suas escolhas, suas dores e suas adaptações.

Mas hoje eu quero falar de um momento muito específico dessa história: o fim de semana em que os filhos vão para a casa do pai e a mãe fica.

Fica com a casa.

Fica com o tempo livre.

Fica com a televisão à disposição.

Fica até com a possibilidade de dormir até mais tarde.

E fica, principalmente, com a cabeça trabalhando em horário integral.

Será que elas estão bem? Comeram direito? Estão agasalhadas? Levaram tudo de que precisam? Estão felizes? O pai lembrou daquele detalhe importante que eu repeti três vezes antes de elas saírem?

E a madrasta? Está tudo bem por lá?

Calma! Antes que alguém me acuse de querer fiscalizar a vida alheia, preciso esclarecer uma coisa: não é necessariamente desconfiança. É costume. É aquela central de monitoramento materno que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, sem férias, sem feriado e, aparentemente, sem botão para desligar.

A gente passa tanto tempo cuidando, antecipando necessidades, resolvendo problemas e prevendo catástrofes que, quando surge a oportunidade de simplesmente não fazer nada, o cérebro entra em pane.

O descanso chega, mas a cabeça continua trabalhando.

É como se a maternidade tivesse instalado um aplicativo permanente na nossa mente. E não adianta colocar no silencioso. As notificações continuam aparecendo.

Só que existe algo ainda mais curioso nessa experiência: a casa muda de som.

O silêncio, que durante a semana parecia um artigo de luxo, começa a incomodar. A gente olha para um canto e lembra de uma conversa. Passa por um quarto e sente falta da bagunça. Abre a geladeira e pensa no que elas gostam de comer.

E, de repente, descobre que estava reclamando justamente das coisas que agora fazem falta.

A síndrome do ninho vazio, geralmente associada à fase em que os filhos crescem e seguem a própria vida, parece ganhar aqui uma versão compacta, itinerante e com calendário marcado.

Ela vai embora na sexta-feira, instala-se no sofá no sábado e, quando a gente começa a entender sua presença, já é domingo e está quase na hora de buscar as meninas.

É uma espécie de ninho vazio com data para acabar. Mas que volta daqui a quinze dias para testar novamente a nossa capacidade de adaptação.

E o que fazemos nesse intervalo?

Tentamos aproveitar!

Pelo menos é o que dizem.

Aproveite para descansar. Vá ao cinema. Encontre as amigas. Leia um livro. Faça aquela receita que você adora. Assista a uma temporada inteira de uma série. Saia para jantar. Cuide de você!

Tudo muito lindo. Tudo muito razoável.

Até você se pegar olhando o celular para ver se chegou alguma mensagem, pensando se elas já almoçaram ou calculando quanto tempo falta para estarem de volta.

A liberdade está ali, sentadinha na sua frente, oferecendo inúmeras possibilidades. E você, em vez de escolher uma, está tentando descobrir se suas filhas levaram o casaco.

É engraçado, se não fosse tão verdadeiro.

Porque a gente também precisa aprender a viver essa nova dinâmica. Aprender que os filhos podem estar bem mesmo quando não estão sob os nossos olhos. Que cuidar não significa necessariamente estar presente em cada minuto. E que confiar também faz parte do trabalho de ser mãe.

Isso não significa que a saudade desapareça, nem que todas as preocupações sejam bobagens. Significa apenas que precisamos encontrar um jeito de continuar sendo mães sem deixar de ser mulheres.

Mulheres que têm vontades, amizades, sonhos, preguiça, curiosidades e uma vida que não precisa ficar suspensa toda vez que os filhos atravessam outra porta.

Confesso que ainda estou aprendendo.

Talvez, no próximo fim de semana sem as meninas, eu consiga fazer tudo aquilo que planejei. Talvez eu durma até tarde, saia com as amigas, veja um filme e tome um café sem olhar o relógio.

Ou talvez eu passe metade do tempo pensando nelas e a outra metade tentando entender por que, agora que posso fazer tudo, não sei exatamente o que quero fazer.

Porque ninguém conta que, às vezes, a maternidade também exige que a gente aprenda a lidar com a ausência temporária dos filhos.

A gente se prepara para o primeiro dia de aula, para a primeira febre, para os primeiros passos e para tantas outras primeiras vezes. Mas quem prepara uma mãe para o primeiro fim de semana inteiro sem as crianças?

Quem ensina a preencher as horas que antes eram ocupadas por pequenas vozes, pedidos, abraços e até reclamações?

Talvez ninguém ensine porque cada mãe precise descobrir sua própria resposta.

Enquanto isso, sigo aqui, tentando aproveitar a oportunidade de descansar, organizar meus pensamentos e lembrar que também existo para além da função materna.

E, claro, esperando a próxima mensagem.

Porque minhas filhas estão na casa do pai.

Eu tenho um fim de semana inteirinho pela frente.

E ainda não decidi se vou aproveitar a liberdade ou começar a contagem regressiva.

Maternidade é isso: a gente ensina os filhos a irem para o mundo, mas precisa aprender, aos poucos, a ficar bem quando eles saem de casa.

Agora, se me dão licença, vou ali conferir se elas levaram o casaco.

*Artigo escrito por Julyana Almeida

Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.

Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae

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