QUANDO A NARRATIVA É MAIOR QUE OS FATOS

Por Nestor de Oliveira – Jornalista e escritor

No clássico e genial filme de John Ford, “O homem que matou o facínora” (The man who shot Liberty Valence), produzido em 1962, estrelado por John Wayne e James Stewart, tem, ao seu final, uma frase antológica, dita por um editor de jornal, após a entrevista com o Senador Ranson Stoddard, papel de James Stewart:    “Quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda”. É um filme triste, onde o personagem de John Wayne, Tom Doniphon, perde a amada e o mérito de ter matado o facínora para o futuro Senador, resultado da lenda criada pela imprensa, fama que ele aproveita e constrói sua vida pública.   

A criação da lenda, não revelando a verdade, mas pela narrativa criada, é uma das melhores formas dos humanos para superavaliar seus personagens, suas histórias, nem sempre merecedores da glória, através de uma versão, maioria das vezes falsas ou mentirosas.  Um fato que se repete frequentemente com esportistas, políticos, ídolos e artistas cultuados pelo grande público, cuja vida nem sempre é aquilo que a mídia e a história contam. É a melhor forma de fazer a realidade desaparecer, escondendo, muitas vezes, fatos desagradáveis, tornando os merecedores da admiração dos desavisados da verdade.

Nicolas Maduro, ex-presidente da Venezuela e atual prisioneiro de Trump, ditador por muitos anos em seu país, manipulador das eleições que o reelegeu, teve do atual presidente do Brasil um sábio conselho: “O que você precisa fazer é construir uma narrativa para sua história”. Nos exatos moldes do filme de John Ford. Mas, o que levou o nosso presidente a dar tal conselho? Teria ele visto o clássico filme? Não acredito. Sua experiência como político é a fonte de tão primoroso conselho, ele próprio criado pela lenda urbana como o “pai dos pobres”, tal e qual o ditador Getúlio Vargas. Sua própria história, a narrativa e construção de sua lenda, ao longo dos tempos, é fonte natural e verdadeira de seu conhecimento. Nada melhor que a versão dos fatos, através de narrativas bem feitas, que a realidade deles. Enumerar suas criações, e delas ser beneficiário, é chover no molhado: fome zero, pleno emprego, índices manipulados do IBGE, quatro refeições diárias para os pobres, picanha e cerveja para todos, desenvolvimento do país, educação para todos, minha casa minha vida, soberania brasileira e um sem fim de discursos e criações que agradam profundamente seus eleitores, crentes das suas versões. Qual o resultado para o país? Estagnação. Para se ter uma ideia, basta dizer que o PIB brasileiro é o mesmo de 2009, em dólares, algo em torno de 2,35 trilhões. Não se move deste patamar, diferentemente dos outros países do mundo, resultado da política econômica adotada desde 2002, onde se demoniza o empreendedorismo, tem os mais altos juros do mundo, discurso de que o lucro é crime, onde o trabalhador é contra o patrão, o pobre contra o rico, o “nós contra eles”.    Não há como nos comparar com nenhum outro país, nosso planejamento é a manutenção da pobreza, fonte inesgotável de votos que o reelegem. Sua lenda prevalecerá em 2026?       

Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor

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