Meu pai, o etarismo tecnológico e a amizade

João Régis Magalhães

Meu pai tem 96 anos. É do finzinho da década de 1920. Ou seja: não apenas nasceu no século XX — ele praticamente ajudou a inaugurá-lo.

Os anos trataram meu pai com gentileza. Está lúcido, saudável, independente e com um estoque inesgotável de histórias. Algumas já ouvi três ou quatro vezes. Finjo surpresa mesmo assim. Certas histórias merecem reprise.

O tempo fez uma coisa curiosa com ele: amaciou-o. Na meia-idade, lembro bem, era mais sisudo, mais fechado — engenheiro, homem da matemática, da lógica, das contas que sempre fecham. Hoje está mais leve. Ri com facilidade. Permite-se mudar de ideia. Os olhos brilham quando aprende algo novo — e brilham ainda mais com as artes dos bisnetos.

Às vezes franze a testa. Mas não é bronca.

É download.

Fica alguns segundos em silêncio, processando. Não é simples para ele entender esse mundo digital. Meu pai nasceu, cresceu e se formou em um planeta completamente analógico. O mundo tinha botão físico, manual impresso e fio ligado na parede. Hoje tem plataforma, algoritmo e nuvem.

Nuvem, aliás, para ele sempre foi coisa de olhar para o céu e ver se ia chover.

A geração do meu pai foi a última 100% analógica. Criada na tabuada — e, em alguns casos, na palmatória. A infância de um menino do século XIX não era muito diferente da de um menino dos anos 1930. Fogão a lenha, comida conservada em gordura animal, água puxada do poço por catavento e banheiro do lado de fora da casa.

Vida simples. Dura. Direta.

Sem tutorial.

A tecnologia, porém, resolveu correr uma maratona enquanto ele ainda estava amarrando o tênis.

Em 1938, ouviu a Copa do Mundo na calçada do vizinho — o único da rua com rádio. O aparelho ficava na janela como se fosse um santo em exposição. A rua inteira virava arquibancada.

Em 1970, assistiu à Copa ao vivo pela televisão, em preto e branco, via satélite. Um milagre tecnológico.

Hoje pode escolher: TV aberta, fechada ou streaming. Tem para todo gosto.

Só não é garantido que encontre o canal sem ajuda.

Meu pai, como muitos de sua geração, enfrenta um tipo silencioso de etarismo tecnológico. Um processo quase invisível de exclusão que vai empurrando os mais velhos para fora do mundo digital. Não por falta de inteligência — mas por excesso de mudança.

A tecnologia muda rápido demais. Interfaces mudam. Botões somem. Menus se escondem. Aplicativos se reinventam toda semana. O que alguém aprende hoje talvez já não funcione amanhã.

Para quem tem 20 anos, isso é adaptação.

Para quem tem 90, é um labirinto.

E o curioso é que esse público só cresce. A população 80+ aumenta todo ano — mas o mundo digital continua sendo desenhado como se só existissem jovens com dedos rápidos e paciência infinita.

E o processo de exclusão dos mais velhos acontece sem dó nem piedade. É unilateral — e não por falta de capacidade.

É excesso de pressa do mundo.

Meu pai está bem no meio dessa estatística.

Para ele, por exemplo, o controle remoto tem botões demais e função de menos. Uma criança de cinco anos desliza o dedo na tela com naturalidade. Já meu pai olha para o aparelho como quem encara um cubo mágico em mandarim.

Congela.

Fica ali, estático, tentando decifrar.

Muitas vezes não passa desse ponto. Desiste antes de conseguir fazer o que queria.

E estamos falando de um engenheiro.

E não de qualquer engenheiro, mas de um formado no IME. Homem das letras e dos números. Curioso. Aplicado. Já aposentado, fez até curso de informática.

Mas a vida digital não dá trégua: você aprende hoje, amanhã já atualizaram.

Sempre surge uma nova versão para embaralhar tudo.

E há um paradoxo nisso: foi a geração do meu pai que ajudou a transformar o Brasil pobre e agrário em industrial — com aço, hidrelétricas, rodovias e o avanço para o oeste.

Foi essa geração que estruturou o Brasil moderno.

Que viu o homem pisar na Lua em uma televisão de tubo.

E, por mais incrível que pareça, agora precisa pedir ajuda para atualizar o aplicativo do banco.

É meio surreal!

Mas vamos falar de coisas mais amenas.

Levo o nome do meu pai. Ou melhor, metade dele. Sou João. O Régis também deveria ter sido herdado por inteiro, mas meu avô José contava que o escrivão do cartório se atrapalhou.

Pense bem: se hoje erram seu nome em cadastro online com corretor automático, imagine em 1929, com pena, tinta e letra caprichada.

Meu pai foi lá e corrigiu o que deu.

E assim virei João Régis.

O João veio da minha avó Joana, que recebeu o nome da avó dela — minha tataravó Joanna Marques dos Santos, com dois enes, porque naquela época a ortografia era quase um esporte radical.

Em 2022 fui a Itapipoca, no Ceará, atrás dessa raiz. Conheci a prima Tarcisa e ouvi histórias sobre a vida de nossos antepassados. Subi a serra até o distrito de Assunção e visitei o túmulo da primeira Joana da família.

Morreu aos 26 anos, em 1878, supostamente, por complicações no parto — como tantas mulheres daquele tempo.

Fiquei ali parado diante da lápide, pensando nesse fio invisível que costura tudo.

Do fogão a lenha ao Wi-Fi.
Da pena ao teclado.
Do rádio na janela ao streaming no celular.

E no meio desse fio todo está meu pai.

Vejo meu pai pelo menos três vezes por semana.

Ele é meu grande amigo.

Conversamos sobre política, futebol (na verdade sobre o Flamengo), passado e futuro — e sobre memórias que ele guarda melhor do que qualquer HD externo.

Sempre saio aprendendo alguma coisa.

No meio de tanta inteligência artificial, atualização automática e senha que precisa ter letra maiúscula, número, símbolo e talvez até exame de sangue, sigo convencido de uma coisa:

A coisa mais moderna que existe não está na nuvem.

Está na mesa da sala.

Numa conversa demorada entre pai e filho.

Um homem de 96 anos tentando descobrir onde foi parar o botão “voltar” do controle remoto — e um filho que, enquanto explica pela quinta vez, percebe uma verdade simples:

há coisas que o tempo não atualiza.

E ainda bem.

O amor entre pai e filho, por exemplo.

Esse continua funcionando perfeitamente.

Mesmo offline.

A todos, um bom fim de semana.
Um pouco de juízo.
Algum discernimento.

Vamô que vamô.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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