A Revista Pepper Digital manifesta seu apoio à jornalista Silvana Scórsin e ao portal Radar Digital Brasília diante das preocupações legítimas levantadas sobre o novo decreto de publicidade oficial do GDF, reafirmando que a comunicação pública não pode ser guiada exclusivamente por métricas frias que desconsideram a relevância social, o alcance territorial e o vínculo construído pelos veículos comunitários com suas audiências; ao impor critérios que favorecem apenas grandes volumes de acesso, corre-se o risco de silenciar vozes fundamentais para a pluralidade informativa e enfraquecer o próprio diálogo entre o Estado e a população, especialmente nas regiões onde a informação chega de forma mais próxima, confiável e efetiva por meio desses canais independentes, razão pela qual defendemos a revisão urgente dessa política, com a adoção de parâmetros mais justos, equilibrados e comprometidos com o interesse público e a democracia.

A comunicação pública não pode ser reduzida a números frios. Ao estabelecer como critério mínimo 200 mil visualizações mensais para habilitação de veículos comunitários a receber campanhas publicitárias, o novo decreto da Secretaria de Estado de Comunicação do Distrito Federal impõe uma lógica mercadológica a um campo que deveria priorizar pluralidade, capilaridade e interesse público.
A medida, apresentada sob o argumento de eficiência e alcance, ignora deliberadamente a realidade do ecossistema digital local. No Distrito Federal e no Entorno, a maioria dos blogs e portais comunitários atua com audiências menores, porém altamente qualificadas, regionais e engajadas. São veículos que informam diariamente sobre ações do governo federal e distrital, prestam serviço à população e mantêm vínculo direto com comunidades que dificilmente são alcançadas pelos grandes portais.
Mesmo blogs reconhecidos por sua relevância e constância editorial — inclusive citados em reportagens recentes como referência entre comunicadores independentes — não atingiam, à época, o patamar agora exigido. Isso evidencia que o critério adotado não reflete qualidade jornalística, influência social ou impacto informativo, mas apenas volume bruto de acessos.
Ao privilegiar exclusivamente a métrica de visualizações, o decreto tende a concentrar recursos públicos em poucos veículos de grande audiência, enfraquecendo a diversidade informativa e reduzindo a presença do poder público em territórios e nichos onde a comunicação comunitária exerce papel fundamental. Alcance, por si só, não é sinônimo de efetividade. Informação que não chega ao público certo também falha em sua função social.
Além disso, em tempos de tráfego impulsionado, viralização artificial e conteúdos desenhados para cliques, a exigência de números elevados pode incentivar práticas que pouco dialogam com o jornalismo responsável. O risco é substituir o compromisso com a informação de interesse público por uma corrida por métricas que não medem confiança, credibilidade ou relevância local.
Há ainda um aspecto que o decreto ignora por completo: a trajetória histórica desses veículos. São anos — em muitos casos, mais de uma década — dedicados por blogs e portais comunitários a divulgar, de forma contínua, ações do próprio Governo do Distrito Federal, de suas secretarias, autarquias, órgãos e autoridades. Esse trabalho foi realizado a partir de conteúdos enviados por assessorias oficiais, reproduzidos, contextualizados e distribuídos para públicos locais específicos, contribuindo para um alcance que vai muito além do que as métricas tradicionais conseguem capturar.

Se agora esses veículos são considerados “inaptos” a receber campanhas publicitárias, a pergunta que se impõe é inevitável: esse histórico de colaboração institucional não teve valor algum?
A comunicação pública construída nesses territórios não se mede apenas em pageviews. Ela se traduz em informação que chega a feiras, bairros, escolas, comunidades rurais, associações e regiões administrativas que raramente são prioridade nos grandes portais. Desconsiderar esse capital simbólico e social é apagar deliberadamente uma parte relevante da engrenagem de divulgação das políticas públicas.
Outro ponto central precisa ser enfrentado: métricas não são um fim em si mesmas, nem deveriam ser responsabilidade exclusiva dos veículos. Visualizações, cliques e impressões servem como ferramentas de análise, não como prova absoluta de valor jornalístico, relevância social ou efetividade da comunicação pública.

Um veículo pode cumprir perfeitamente sua função social — informar, orientar, alcançar públicos estratégicos — mesmo sem atingir números massivos. A análise de desempenho, segmentação de público, adequação de linguagem, engajamento e otimização de investimento publicitário são atribuições técnicas das agências de propaganda contratadas pelo governo — agências que recebem verbas vultosas justamente para planejar, executar e avaliar campanhas de forma estratégica. Transferir essa responsabilidade integralmente para os veículos, especialmente os comunitários, é inverter a lógica do processo e esvaziar o papel técnico dessas contratações.
Cabe às agências — e não a um critério rígido e excludente em decreto — avaliar cada ação, cada campanha e cada veículo, considerando perfil editorial, audiência qualificada, território de atuação, engajamento real e objetivo comunicacional. Publicidade institucional eficiente não se faz com uma régua única, mas com inteligência de mídia, planejamento e leitura sensível da realidade local.
Quando o Estado reduz essa complexidade a um número fixo de visualizações, ele não apenas fragiliza a comunicação comunitária: ele empobrece sua própria capacidade de dialogar com a sociedade.

Publicidade institucional não é prêmio, nem favor. É instrumento de política pública. Deve informar, orientar e dialogar com a sociedade em toda a sua diversidade. Quando critérios excludentes são impostos sem debate amplo, o resultado é o enfraquecimento da comunicação democrática e o silenciamento gradual de vozes que historicamente cumprem um papel que o Estado, sozinho, não consegue exercer.
É necessário rever. Criar faixas de habilitação, considerar regionalização, engajamento, frequência editorial e função social dos veículos não é retrocesso — é maturidade institucional. Defender a comunicação comunitária é defender o direito à informação plural.
Métrica não pode ser censura indireta. E publicidade pública não pode servir para restringir quem informa, mas para ampliar o acesso da população ao que é de interesse coletivo.

Silvana Scórsin: Uma Líder Visionária em Sustentabilidade e Comunicação

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