Itália e Brasil: uma história escrita por gerações, cultura e afeto

Em conversa descontraída e exclusiva à Revista Pepper Digital, o embaixador Alessandro Cortese fala sobre os laços históricos entre os dois países, a força da comunidade ítalo-brasileira, a paixão por Brasília e a confiança no futuro dessa relação que atravessa oceanos e séculos.

Por Revista Pepper Digital

Sérgio Donato, Embaixador Italiano Alessandro Cortese, Júlio Jardim e Benedeto Reitano assessor de imprensa da embaixada Italiana

Existem relações diplomáticas construídas por tratados, acordos comerciais e interesses estratégicos. E existem aquelas que ultrapassam a formalidade dos gabinetes para se transformar em uma conexão genuína entre povos. A relação entre Brasil e Itália pertence a essa segunda categoria.

Ao longo de mais de um século e meio, milhões de italianos cruzaram o Atlântico em busca de oportunidades e encontraram no Brasil um novo lar. Trouxeram consigo tradições, costumes, sotaques, receitas, músicas e sonhos. Em contrapartida, encontraram um país acolhedor, vibrante e aberto à diversidade.

O resultado dessa fusão é visível até hoje. Está presente na mesa dos brasileiros, na arquitetura das cidades, na força do empreendedorismo, nos sobrenomes que atravessam gerações e na identidade de milhões de cidadãos que carregam, simultaneamente, o orgulho de suas raízes italianas e o amor pelo Brasil.

Recebida na Embaixada da Itália, em Brasília, a equipe da Revista Pepper Digital, o Publisher Sergio Donato, a editora Julyana Almeida, o colunista Julio Jardim e o cinegrafista Marcos Souza, conversaram com o embaixador Alessandro Cortese, que compartilhou sua visão sobre essa relação histórica e destacou o papel fundamental dos descendentes italianos na construção do Brasil moderno.


Uma comunidade que une duas nações

Para o embaixador, poucos países no mundo possuem uma ligação tão profunda com a Itália quanto o Brasil.

Segundo ele, os números impressionam. São cerca de 32 milhões de ítalo-descendentes vivendo em território brasileiro, formando uma das maiores comunidades de origem italiana fora da Europa.

“Existe uma percepção de que a Argentina possui a maior comunidade italiana do mundo, mas o Brasil ocupa essa posição. Além disso, há aproximadamente um milhão de cidadãos italianos vivendo aqui. É uma ligação humana extraordinária”, afirma.

Mais do que estatísticas, essa presença representa uma herança cultural viva.

Os italianos, observa o diplomata, enxergam no Brasil valores e hábitos muito próximos daqueles encontrados em seu país de origem.

“O brasileiro e o italiano compartilham o gosto pela convivência, pela boa comida, pela música, pelo futebol e pela celebração da vida. Existe uma afinidade natural entre os nossos povos.”

Essa identificação foi percebida por ele logo nos primeiros dias após sua chegada ao país.

“Poucas semanas depois de desembarcar no Brasil, eu já me sentia em casa.”


Brasília: uma paixão inesperada

Embora São Paulo seja reconhecida como a cidade mais italiana do Brasil, Brasília conquistou um espaço especial no coração do embaixador.

Ao falar da capital federal, sua admiração é evidente.

Brasília o impressiona pela qualidade de vida, pela organização urbana, pelas áreas verdes e pela sensação de amplitude que poucas metrópoles conseguem oferecer.

“É uma cidade agradável, segura e extremamente bem planejada. A vida aqui é muito confortável. Comparada a outras grandes capitais, oferece uma tranquilidade rara.”

O embaixador lembra que visitou Brasília ainda na década de 1980, mas admite que sua relação com a cidade se transformou completamente ao passar a viver nela.

Hoje, após mais de dois anos e meio na capital brasileira, ele se declara profundamente conectado à cidade.

“Brasília tem personalidade própria. É uma cidade jovem, mas que já construiu uma identidade muito forte.”


O encontro entre Niemeyer e a engenharia italiana

A admiração por Brasília se estende à arquitetura.

Poucos edifícios representam tão bem esse diálogo cultural quanto a própria Embaixada da Itália, projetada pelo renomado arquiteto e engenheiro italiano Pier Luigi Nervi, um dos maiores nomes da arquitetura do século XX.

Contemporâneo de Oscar Niemeyer, Nervi desenvolveu uma linguagem arquitetônica própria, marcada pelo uso inovador do concreto armado e por soluções estruturais revolucionárias.

“Existe uma harmonia muito interessante entre a arquitetura da embaixada e os monumentos de Brasília. Muitos arquitetos europeus visitam a cidade e fazem questão de conhecer o edifício justamente por sua importância histórica e arquitetônica.”

Recentemente restaurada, a sede diplomática voltou a abrir seus espaços para eventos e visitas institucionais, permitindo que convidados conhecessem de perto uma das obras mais emblemáticas da presença italiana no Brasil.


A Festa da República e os 80 anos da democracia italiana

Outro tema abordado durante a entrevista foi a celebração da Festa da República Italiana, realizada em 2 de junho.

A data marca o referendo de 1946 que definiu a Itália como uma república e encerrou oficialmente o período monárquico do país.

Neste ano, a celebração teve um significado ainda mais especial.

A Itália comemorou os 80 anos desse momento histórico, que também marcou a primeira vez que as mulheres italianas participaram de uma votação nacional.

“Foi uma transformação fundamental para o país. Não apenas pela escolha da forma republicana de governo, mas também porque representou um enorme avanço democrático.”

As comemorações ocorreram em diversas partes do mundo, incluindo Brasília, onde autoridades, representantes da sociedade civil e membros da comunidade italiana se reuniram para celebrar a data.


Ancelotti e a nova ponte entre Itália e Brasil

Se existe um tema capaz de aproximar instantaneamente brasileiros e italianos, ele atende por um nome universal: futebol.

Por isso, a chegada de Carlo Ancelotti ao comando da Seleção Brasileira foi recebida com entusiasmo pelo embaixador.

Para ele, trata-se de um dos profissionais mais vitoriosos da história do esporte.

“Os números falam por si. Ele conquistou títulos nas principais ligas europeias e venceu as competições mais importantes do futebol mundial. É um treinador extraordinário.”

Mas o significado da escolha vai além do aspecto esportivo.

Ancelotti representa mais um capítulo da relação de confiança construída entre os dois países ao longo das décadas.

“Agora ele está trabalhando pelo Brasil, e nós italianos acompanhamos isso com enorme orgulho. Tenho certeza de que fará um grande trabalho.”


Os verdadeiros embaixadores da Itália

Ao final da conversa, Alessandro Cortese reservou suas palavras mais emocionadas para aqueles que considera os grandes responsáveis pela proximidade entre as duas nações: os descendentes italianos que ajudaram a construir o Brasil.

Para ele, são essas famílias que mantêm viva uma história iniciada há mais de 150 anos.

“Os ítalo-brasileiros são os verdadeiros embaixadores da Itália neste país. Eles preservaram tradições, contribuíram para o desenvolvimento econômico, cultural e social do Brasil e construíram uma ponte permanente entre nossas nações.”

A afirmação resume a essência da relação ítalo-brasileira.

Uma história que não se mede apenas por acordos diplomáticos ou números econômicos, mas por laços familiares, memórias compartilhadas e valores que atravessam gerações.

Ao deixar a Embaixada da Itália, a sensação é de que Brasil e Itália continuam escrevendo juntos uma mesma narrativa. Uma história de imigração, integração e afeto que transformou dois países separados pelo oceano em parceiros unidos pela cultura, pela amizade e por um sentimento mútuo de pertencimento.

Mais do que uma relação diplomática, uma relação de família.

Ainda essa semana, a coluna Agitando com Júlio Jardim vai trazer um vídeo exclusivo sobre esse momento.

Por Julyana Almeida

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