A Pergunta Certa.
João Régis Magalhães
Benévolo estava fascinado pelo brinquedo novo. A cada descoberta, surgia outra ainda mais surpreendente. Tratava-o como um tesouro recém-encontrado. Não desgrudava dele nem por um instante, decidido a recuperar o tempo perdido depois de tanto tempo achando que aquilo era apenas modismo.
Há poucos dias abandonara o preconceito — filho legítimo da ignorância — e, enfim, começara a descobrir do que a inteligência artificial era capaz. Como todo recém-convertido, queria recuperar em poucas horas o tempo que desperdiçara desdenhando dela.
— Ah, se essa tal de IA existisse quando eu era estudante… Minha vida teria sido outra! E como!
Fez uma breve pausa, balançou a cabeça e completou:
— Sou do tempo em que televisão era preto e branco e telefone era artigo de luxo. Quando ele tocava, o que era coisa rara, a casa inteira saía correndo para atender. Bem… os tempos mudaram! E como mudaram! Agora tenho uma inteligência artificial no bolso. Se alguém me dissesse isso trinta anos atrás, eu mandava era internar num hospício.
Com o semblante pensativo, continuou suas reflexões em voz alta:
— Oh, glória! Como este mundão de meu Deus está mudado! Nem sei onde isso tudo vai parar. Tenho até medo.
Fez outra pausa antes de prosseguir:
— Porque, como tudo na vida, isso também pode dar ruim se a gente não tomar os devidos cuidados.
Sentou-se na poltrona predileta, apoiou as pernas numa banqueta e ficou algum tempo meditando, até concluir:
— Tenho a impressão de que, quanto melhor essa IA ficar, mais serviço ela vai tomar da gente. De gente que vive do próprio trabalho. E isso pode deixar uma multidão sem emprego, sem renda. Seria um desastre para muita gente boa.
Mas o pessimismo durou pouco.
— Também… nem tudo é notícia ruim.
Sorriu, como quem acabara de lembrar de uma coisa boa.
— A IA já mostrou que pode facilitar a vida da gente. Eu mesmo já estou tirando proveito dela. Comecei a estudar espanhol com a ajuda da inteligência artificial. Um show! Em uma semana aprendi mais do que em meses estudando do jeito tradicional.
Olhou novamente para o celular.
— Deixa eu ver se entendi essa danada…
Coçou a cabeça.
— Eu pergunto… ela responde. Eu peço para resumir… ela resume. Se peço para explicar melhor… ela explica. Se mando traduzir… traduz. E ainda faz isso tudo sem perder a paciência.
— Parece até gente…
Pensou um instante.
— Não.
Gente reclama.
Deu uma risada.
— Eita bichinha obediente da gota serena!
Animou-se.
— Antigamente, no meu tempo de estudante, professor devolvia a redação corrigida toda pintada de vermelho. Essa aqui explica onde a gente errou, sugere outro caminho e ainda pergunta se pode ajudar em mais alguma coisa. Está ficando difícil competir.
Fez uma pausa.
— Não faz muito tempo, a gente levava um dicionário debaixo do braço. Hoje carrega um professor no bolso. E dos bons.
Os olhos brilharam.
— Na medicina então… Se essa engenhoca ajudar a descobrir um câncer antes mesmo de ele dar sinal de vida, ou avisar ao médico antes que a doença avise o paciente, já terá feito por nós mais do que podia se imaginar. Seria realmente o melhor dos mundos.
Tomou fôlego.
— Também pode livrar a gente de um bocado de trabalho chato. Menos formulário, menos fila, menos burocracia…
Parou de repente.
— Se conseguir acabar com esse monte de senha de banco que a gente nunca lembra direito e vive digitando errado, com a musiquinha interminável e irritante das centrais de atendimento e com todas essas outras chateações que roubam nosso tempo e nossa paciência… bem que a IA merecia um lugar de destaque entre os benfeitores da humanidade. E, quem sabe, até um prêmio Nobel.
Riu mais da ideia do que da piada, porque ela lhe parecia impossível.
— E o melhor de tudo: talvez sobre mais tempo para viver. Jogar conversa fora, brincar com os netos, aprender um novo idioma, ler um bom livro, tomar um café sem olhar no relógio…
Baixou um pouco a voz.
— Trabalhar faz parte. O problema é quando sobra tão pouco tempo para viver tranquilo e sem aporrinhações.
O sorriso desapareceu por alguns instantes.
— Agora, deixa eu pensar numa coisa.
Olhou demoradamente para o celular.
— Escuta aqui…
Naturalmente, não esperava resposta.
— Se você escreve um poema… quem é o poeta?
Silêncio.
Passou a mão no queixo.
— E se ajuda um médico a salvar uma vida… de quem é o mérito?
Mais alguns segundos.
— Acho que estou fazendo as perguntas erradas.
Silêncio.
Pegou novamente o celular.
— Me diga uma coisa…
Sorriu.
— Você já se apaixonou?
Esperou como se realmente aguardasse a resposta.
Leu atentamente o que apareceu na tela.
Balançou a cabeça devagar.
— Imaginei.
Colocou o aparelho sobre a mesa.
Olhou pela janela antes de voltar a falar.
— Você sabe explicar o amor. Mas nunca ficou sem dormir por causa dele.
Fez outra pausa.
— Pode explicar direitinho o que é saudade. Mas nunca ficou olhando para o telefone esperando uma ligação.
Respirou fundo.
— Consegue descrever uma lágrima. Mas nunca chorou.
Um sorriso sereno voltou ao rosto.
— Acho que entendi.
Fez uma última pausa.
— Você conhece mais livros do que todas as bibliotecas que eu visitei.
Silêncio.
— Enquanto euzinho aqui, às vezes, nem lembro onde deixei os óculos. Nisso você ganha de mim de goleada.
Riu sozinho — agora um riso solto.
— Mas também nunca tomou um café demorado com um amigo só porque a conversa estava boa. Nunca chorou num velório. Nunca ficou com o coração disparado esperando o nascimento de um filho. Nunca sentiu o cheiro de terra molhada antes da chuva.
Pegou o celular, girou-o entre os dedos e concluiu:
— A inteligência artificial vai mudar o jeito de trabalhar, de estudar, de curar doenças, de resolver problemas. Vai tornar o mundo mais rápido e talvez até melhor.
Olhou novamente para o celular.
— Mas tomara que nunca consiga fazer o que mais importa.
Silêncio.
— Porque, no dia em que a máquina aprender a amar, perdoar, sentir culpa, ter compaixão, sonhar ou criar esperança…
Parou a frase no meio.
Sorriu de leve.
— …nesse dia, talvez o problema já não seja mais a inteligência artificial.
Ficou alguns instantes olhando para o aparelho.
Depois o guardou no bolso.
Abriu a porta de casa.
Lá fora o tempo estava mudando.
Benévolo respirou fundo.
Sorriu.
— Imaginei.
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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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