Honesta, boa e comovida
Da janela, no último andar do prédio em que se encontra o escritório em que trabalho, podemos ver uma grande movimentação de veículos e agentes da polícia e do trânsito. Eles fecham a pista em frente à entrada principal com
cones e viaturas. Chegam um grande caminhão de som e uma van abarrotada de equipamentos de som que são rapidamente descarregados.
A princípio não sabíamos o motivo de tamanha movimentação, mas, aparentemente, seria uma manifestação histórica, com discursos inflamados, música estridente intercalada com gritos e palavras de ordem.
Montaram uma barraca para lanche dos manifestantes, distribuíram camisetas com motivos relacionados ao evento. O locutor convidava os presentes a usarem as camisetas e se alimentar e hidratar. Tudo 0800: sem custo.
Apuramos, então, que era uma concentração classista para influenciar os deputados distritais numa votação importante quanto ao aporte de uma grande soma para “socorrer” o Banco Regional de Brasília, o BRB. Um banco estatal, dos últimos remanescentes desse tipo de instituição e que está prestes a uma total derrocada em função de corrupção desenfreada e envolvimento com o Banco Master.
Pouco depois do início da concentração, notamos que o número de manifestantes era bastante reduzido. As grandes caixas de som voltaram para a van e os cones que impediam o trânsito começaram a ser recolhidos. Havia poucas pessoas. Sobrou lanche e várias camisetas continuaram dobradas e embaladas sobre a banca improvisada. Alguém que olhava a cena comentou: “não deu quórum”, numa alusão ao esvaziamento que, às vezes, ocorre nos plenários legislativos.
A manifestação triste, desanimada e minguada reacendeu em mim a memória, do dia 18 de julho de 1980, quando se encerraram as transmissões televisivas da primeira emissora mineira: a TV Itacolomy. Até o “jingle” de abertura se
impôs como uma lembrança muito clara: “TV Itacolomy, Canal 4, Belo Horizonte, Miiiiinas Gerais!”, com a estampa de um indiozinho sorridente. Foi marcante a figura do bom apresentador Isaias Lansky, clamando, quase desesperado, pela manutenção do canal e a sensação que eu tinha, então, era que ele bradava num deserto. Às 10h27min daquela manhã os transmissores foram desligados.
As expressões nos rostos dos manifestantes de agora também eram doloridas, pois responder com o próprio emprego pela corrupção e banditismo de outrem, gera uma sensação angustiante de impotência. E aqueles que deveriam dar e ser exemplo de hombridade e honestidade se refestelam no erário com a firme convicção da impunidade que hoje grassa no Poder Público.
Muitos de nós, PcD, sofremos discriminações e essa mesma sensação de impotência ante forças bestiais. Os apartados, injustamente, dos direitos que deveriam ser de todos, muitas vezes conseguem lutar e minimizar as perdas. Noutras oportunidades sucumbem a tantas e tão poderosas adversidades.
Com propriedade, Belchior, lançou uma canção que retrata bem a imagem desses tempos: “… Era feito aquela gente honesta, boa e comovida, que caminha para a morte pensado em vencer na vida (…) que tem no fim da tarde
a sensação da missão cumprida”; Pequeno perfil de um cidadão comum (1978).

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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