Ainda há Copa
João Régis Magalhães
O sofrimento começou cedo. Ainda em dezembro de 2025, no dia do sorteio dos grupos.
Benévolo repetiu um velho ritual para acompanhar o espetáculo: vestiu o velho manto amarelo, já com alguma rodagem — entrava pela sua quarta Copa do Mundo. Não era exatamente a mesma camisa das primeiras Copas que assistira. Em algum momento entre uma edição e outra, houve uma inevitável atualização de manequim. Não porque tivesse crescido. A vida apenas lhe acrescentara alguns centímetros em direções menos convencionais.
Ele, devidamente uniformizado, com a camisa ligeiramente apertada, sentou-se diante da televisão alguns minutos antes das duas da tarde. Trazia nas mãos um terço e um patuá. Tratando-se de assunto sério, não economizava na fé. Sua espiritualidade era democrática, ecumênica e, em momentos de maior aflição, francamente oportunista.
Quando o Brasil foi sorteado para estrear no dia 13 de junho, Benévolo sentiu um arrepio a lhe percorrer a espinha. Logo em seguida veio o alívio ao verificar que a data não caía numa sexta-feira.
— Ufa! Já pensou que tragédia estrear numa sexta-feira 13! — exclamou, desafogado.
Mas logo quase se arrependeu do consolo. O adversário da estreia era justamente um dos semifinalistas da Copa anterior.
— Olha só que pedreira…
Tentou reagir.
— Vamos lá, não se apequene. Quem acredita no hexa não escolhe adversário. Vai, Brasil!
Repetiu a frase para si mesmo, em voz baixa e sem excessos de convicção. Afinal, enfrentar uma seleção forte logo na estreia certamente não figurava entre seus pedidos mais frequentes aos céus.
Foi com esse espírito cambaleante que acompanhou a divulgação da pré-lista, da convocação definitiva e dos dois amistosos preparatórios. Não alimentava ilusões. A realidade o havia ensinado que esperança demais, quando o assunto era seleção brasileira, era investimento de alto risco. Parcimônia era a palavra de ordem.
Na semana que começaria a Copa, tornou-se religioso assíduo. Não poupou promessas nem negociações espirituais. Frequentou igrejas, templos e terreiros. Cogitou visitar também uma mesquita, mas desistiu após descobrir que o islamismo era a religião oficial do Reino do Marrocos. Desconfiou que, naquele caso, suas preces poderiam acabar fortalecendo o adversário.
No sábado, horas antes do jogo, assistiu, em grande parte de joelhos, à missa das seis da manhã na Igreja de Santo Antônio de Pádua. Convencera-se de que o santo, padroeiro do dia, por ser de origem portuguesa, guardava alguma simpatia pelo escrete canarinho. Não havia qualquer evidência disso, mas também não havia evidência do contrário.
Sua antiga camisa amarela estava pronta para o combate. A bandeira nacional, pendurada na sala de TV, pertencia à família desde a Copa de 1950. Herdara-a do avô, que nela enxugara as lágrimas após o “Maracanazo” e que depois a viu tremular por cinco vezes no topo do mundo. A bandeira carregava mais história do que muitos livros didáticos e, provavelmente, mais traumas também.
Supersticioso por devoção, Benévolo desenvolvera ao longo das Copas algumas manias próprias; outras herdara da convivência familiar. Usava a mesma camisa durante toda a competição, sem lavá-la uma única vez. Assistia ao primeiro tempo sempre sentado do lado direito do sofá e ao segundo tempo do lado esquerdo. Não sabia exatamente por quê. Mas também não sabia demonstrar matematicamente a lei da gravidade, e nem por isso duvidava dela.
Outra mania: em dia de estreia do Brasil na Copa almoçava sempre feijoada que ele mesmo preparava de véspera. Também não tinha explicações acerca disso. O retrospecto estatístico da feijoada era inconclusivo, mas Benévolo jamais permitiu que a ausência de provas comprometesse uma superstição promissora.
No dia do jogo, pouco antes do início da partida, ajoelhou-se no oratório de sua casa, rezou o Pai-Nosso e a Ave-Maria e rogou aos céus que trouxessem alegrias para os mais de duzentos e treze milhões de almas verde-amarelas. Bem que elas estavam precisando. E como estavam!
Ainda não satisfeito, voltou a rogar proteção à Mãe Natureza e ao Arquiteto do Universo. Desta vez, ampliou o pedido: recorreu aos guias espirituais, aos orixás, aos caboclos e a todos os santos aprendidos nos tempos do catecismo. Pediu que iluminassem a pontaria dos craques canarinhos e garantissem uma vitória na estreia, nem que fosse por meio a zero. O importante era vencer.
Mas o tempo em Brasília mudou naquele final de semana. Choveu de verdade. E chover em junho no Planalto Central é coisa raríssima. Às vésperas do inverno, o tempo na região habitualmente é frio e seco. A grama já costuma estar quase marrom por essa época. Este ano estava sendo diferente.
Benévolo, boleiro supersticioso, ensimesmado, procurou alguma possível relação entre a estreia e aquela chuva improvável. Não encontrou explicação plausível. Restaram apenas as implausíveis. E eram justamente essas que mais o preocupavam.
Pensou com seus botões:
— Será que é mau agouro?
Não tinha muito o que fazer, a não ser pagar para ver.
Sintonizou a televisão numa conhecida plataforma de vídeos online, mas desistiu alguns bons minutos depois. A transmissão parecia convencida de que apenas uma seleção participava da partida. O Marrocos aparecia tanto na tela que Benévolo começou a desconfiar que o algoritmo torcia contra o Brasil. Ou que a transmissão fosse patrocinada pelo Ministério do Turismo marroquino.
O limite foi quando o Marrocos fez 1 a 0. Aí trocou de imediato para uma transmissão tradicional.
Durante alguns segundos permaneceu imóvel diante da televisão. Não exatamente em estado de choque. O torcedor brasileiro já desenvolvera certa resistência a esse tipo de sofrimento. Era mais uma sensação de familiaridade desconfortável. Como reencontrar um velho problema que se imaginava aposentado.
Coincidência ou não, só depois da mudança de canal a Seleção Canarinha começou a mostrar alguns lampejos de futebol. Escassos e isolados, a bem da verdade. Mas suficientes para Benévolo tomar nota mental do ocorrido. Não chegava a ser uma prova científica. Mas para ele era quase isso.
Mesmo um pouco melhor, o Brasil seguia errático. Tinha mais posse de bola do que ideias. Tocava de um lado para outro como quem procura uma porta que não existe.
Mas futebol também tem seus momentos de misericórdia e quiçá de glórias. Com a mítica camisa 07, um dia eternizada por Mané Garrincha, Vini Júnior, eleito o melhor jogador do mundo em 2024, marcou um golaço aos 32 minutos do primeiro tempo e recolocou o Brasil na partida.
Benévolo gritou gooooolll com a convicção de quem acabara de receber um sinal dos céus. Respirou aliviado. Não chegava a atribuir o gol à troca de canal. Talvez as suas orações. Mas também não descartava completamente a hipótese.
Levantou os braços, agradeceu simultaneamente a Santo Antônio, aos orixás, aos caboclos e ao camisa 07. Não necessariamente nessa ordem. Em momentos decisivos, sua religiosidade costumava ficar um pouco confusa.
No segundo tempo, Ancelotti mexeu no time. O futebol melhorou, mas não o suficiente para alterar o placar.
Os minutos finais pareceram mais longos do que os noventa anteriores. Benévolo alternou posições no sofá numa frequência capaz de transformar superstição em problema ortopédico. Nada funcionou. Nem a mudança de lugar. Nem o terço. Nem a feijoada preparada na véspera.
Quando o árbitro apitou pela última vez, ninguém parecia satisfeito. Nem os brasileiros. Nem os marroquinos. Nem a bola.
Final de jogo: empate pálido e justo.
Benévolo, desolado e com cara de poucos amigos, resolveu boicotar todos os programas esportivos daquela noite. Não estava disposto a ouvir explicações. Em sua experiência de torcedor, comentaristas raramente esclareciam alguma coisa. Principalmente quando tentavam justificar o inexplicável.
Recolheu a bandeira, dobrou cuidadosamente a camisa da sorte e foi dormir mais cedo.
Dormiu mal.
No domingo pela manhã, porém, já estava um pouco melhor.
Torcedor é um bicho estranho. Sofre intensamente, mas sua capacidade de recuperação desafia a lógica e ainda mais a medicina.
Enquanto tomava café, folheou o jornal e encontrou uma frase que lhe devolveu parte do ânimo:
— Em Copa do Mundo, não importa como se começa. Importa como se termina.
Ficou alguns segundos encafifado, remoendo a frase.
Lembrou-se da Argentina em 2022. Estreara perdendo para a Arábia Saudita. Dias depois, levantava a taça.
Aquilo não chegou a tranquilizá-lo. Também não o convenceu de que o hexa estava logo ali na esquina. Mas foi suficiente para alimentar algo muito mais importante: a esperança, esse sentimento que o torcedor brasileiro insiste em cultivar mesmo quando todas as evidências recomendam prudência.
Benévolo abriu novamente a tabela da Copa. O próximo compromisso seria contra o Haiti.
Passou os minutos seguintes construindo cenários otimistas, ignorando cenários pessimistas e descartando cenários realistas. Era um procedimento que aperfeiçoara ao longo de décadas de arquibancada e sofá.
Quem sabe deixassem dessa vez o Endrick jogar. Quem sabe Raphinha reaprendesse a cruzar. Quem sabe Paquetá descobrisse novamente para que servem os companheiros de equipe. Quem sabe a chuva de junho tivesse sido um sinal positivo que ele ainda não conseguira interpretar corretamente.
Afinal, os sinais nunca são claros quando acontecem. Só depois.
Benévolo sorriu pela primeira vez desde o apito final.
O hexa continuava distante, é verdade. Mas continuava vivo. E, para um torcedor experiente, há uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Permaneceu alguns instantes olhando para a tabela, como se dela pudesse extrair alguma revelação estratégica ou espiritual. Não encontrou nenhuma.
Em compensação, tomou uma decisão importante.
Continuaria sem lavar a camisa.
Afinal, a Copa estava apenas começando.
E Benévolo já aprendera havia muito tempo que, em matéria de futebol, esperança demais nunca resolveu nada. Mas esperança de menos costumava dar azar.
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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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