As Doces Delícias da Rotina
Existe uma grande injustiça que ninguém comenta: as 24 horas das mães não têm a mesma duração das 24 horas das outras pessoas.
É impossível.
Enquanto alguém diz que “aproveitou a manhã para descansar”, nós já acordamos antes do despertador porque um ser de um metro de altura resolveu perguntar, às 5h48, se hoje é sábado. Antes das oito da manhã, já negociamos a troca de uma camiseta que pinica, encontramos um dinossauro perdido, preparamos café, limpamos o leite que misteriosamente caiu para os lados e nunca para dentro do copo, assinamos um bilhete da escola e respondemos à pergunta “o que tem para comer?” umas sete vezes.
E isso antes das 9 horas.
A rotina com crianças é uma experiência curiosa. Nós criamos horários justamente porque elas precisam deles. Elas, por outro lado, dedicam boa parte do dia tentando provar que horários são apenas sugestões.
Dormir às oito?
“Mas eu nem estou com sono.”
A mesma criança que, no dia seguinte, acorda às seis da manhã parecendo um zumbi de filme de terror, irritada com o mundo e convencida de que a culpa é da mãe.
Hora do banho.
É impressionante como um ser humano que passou três horas correndo, pulando, rolando na grama e abraçando o cachorro considera um absurdo a ideia de entrar na água.
Já para sair do banho…
É preciso uma negociação internacional.
Escovar os dentes então merece um capítulo à parte. Você compra a escova colorida, a pasta com sabor de tutti-frutti, coloca música, inventa historinhas, faz teatrinho… e, ainda assim, escuta:
— Escovei.
Olha a escova.
Seca.
Nem a cárie acreditou.
E guardar brinquedos? Ah… esse é um clássico.
Cinquenta carrinhos espalhados pela sala não pertencem a ninguém.
Mas basta você pegar um para guardar e imediatamente aparece um pequeno advogado dizendo:
— Ei! Eu estava brincando!
Estava. Claramente. Com todos os cinquenta ao mesmo tempo.
O mais engraçado é que eles lutam contra a rotina como se fosse a maior inimiga da infância.
Só que basta um dia sair completamente dos trilhos para tudo virar um festival de mau humor, sono acumulado, fome fora de hora e uma crise existencial porque o biscoito quebrou no meio.
A verdade é que criança gosta de rotina.
Ela só não sabe disso.
Nós sabemos.
Por isso insistimos.
Porque a rotina dá segurança. Ensina organização. Mostra que existe hora de brincar, hora de comer, hora de descansar e, principalmente, hora de a mãe fingir que vai ao banheiro… só para conseguir cinco minutos de silêncio.
Cinco minutos.
Que, curiosamente, duram apenas quinze segundos antes de alguém bater na porta perguntando:
— Mãããe… você tá aí?
Sempre estou.
Aliás, acho que esse deveria ser o lema oficial da maternidade.
No fim das contas, reclamamos da correria, juramos que o dia precisava ter umas 36 horas e vivemos dizendo que não demos conta de tudo.
Mas, entre uma mochila esquecida, um banho negociado, uma meia desaparecida e um beijo de boa-noite, a rotina vai costurando a infância sem que a gente perceba.
E talvez sejam justamente esses dias absolutamente comuns que um dia vão virar as lembranças mais extraordinárias.
Embora, sinceramente, eu ainda ache que alguém está roubando umas oito horas do meu dia.

*Artigo escrito por Julyana Almeida
Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.
Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae