A difícil arte de sentir saudade antes mesmo de ir
Existe uma contradição que só as mães conseguem explicar. Ou melhor… nem explicar conseguem.
Passamos as férias inteiras dizendo: “Meu Deus, alguém fica com essa criança cinco minutinhos, por favor!” Cinco minutos. Nem estamos pedindo um spa nas Maldivas. Às vezes, tudo o que queremos é tomar um café ainda quente, ir ao banheiro sem plateia ou conseguir terminar uma ligação sem alguém gritando “Mããããe!” pela décima terceira vez.
Aí a vida resolve atender o nosso pedido.
Surge uma viagem de trabalho. Um compromisso inevitável. Dois ou três dias longe de casa.
E, de repente, aqueles cinco minutos que pareciam insuficientes viram um buraco enorme dentro do peito.
Porque uma coisa é querer um respiro. Outra completamente diferente é precisar partir.
É curioso como a maternidade faz isso com a gente. No mesmo dia em que comemoramos o silêncio da casa, começamos a olhar fotos dos filhos no celular. A mesma criança que, horas antes, espalhou brinquedos pela sala inteira agora parece um anjo injustiçado pela nossa ausência.
E não adianta.
A gente pergunta se comeu, se dormiu, se tomou banho, se levou casaco, se escovou os dentes, se sentiu saudade… E quem sofre somos nós.
O peito aperta antes mesmo de fechar a mala.
A culpa aparece sem ser convidada.
Será que vão sentir minha falta? Será que vão ficar bem? Será que eu precisava mesmo viajar?
A verdade é que a mãe que trabalha vive permanentemente entre a cruz e a espada. Trabalha porque quer oferecer segurança, oportunidades, experiências e um futuro melhor para os filhos. Mas, ao mesmo tempo, gostaria de estar presente em cada tarefa da escola, em cada abraço depois de um dia difícil e até naquela discussão sobre quem deixou a toalha molhada em cima da cama.
Durante muito tempo fizeram as mães acreditarem que precisavam escolher: ou a carreira ou os filhos.
Só que a maioria de nós descobriu que a vida não funciona assim.
A gente escolhe os dois. E paga o preço emocional dessa decisão quase todos os dias.
Saímos para trabalhar pensando neles. Voltamos para casa pensando no trabalho que ficou. Quando estamos em um lugar, nosso coração está no outro.
É cansativo.
Mas também é um ato diário de amor.
Porque toda mãe que sai para trabalhar leva na bolsa uma dose generosa de culpa, outra de coragem e uma esperança enorme de que, um dia, os filhos entendam que cada reunião perdida, cada viagem necessária e cada despedida na porta de casa também eram formas de dizer: “Eu amo vocês.”
No fim das contas, descobrimos que somos mesmo mulheres-maravilha. Não porque damos conta de tudo — porque, convenhamos, ninguém dá. Mas porque, mesmo com o coração dividido, seguimos em frente.
E talvez seja exatamente isso que os filhos guardem da infância.
Não a quantidade de horas que estivemos em casa.
Mas a imensidão do amor que sempre voltou com a gente.

*Artigo escrito por Julyana Almeida
Jornalista, mãe de 3 crianças lindas e disposta a compartilhar as loucuras e gostosuras da maternidade.
Instagram: https://www.instagram.com/rabiscosdeumamae