A SOCIEDADE DO IMPROVISO
Por que planejamos tão pouco e reclamamos tanto?
Existe uma característica que parece atravessar diferentes áreas da vida brasileira: a capacidade de improvisar. O improviso costuma ser visto como criatividade, flexibilidade ou habilidade para superar dificuldades. Em situações de emergência, pode até representar uma virtude. O problema surge quando deixa de ser exceção e passa a substituir o planejamento.
Na engenharia, improvisar raramente é uma opção. Toda obra começa muito antes da primeira máquina chegar ao terreno. Estudos, projetos, cronogramas, análise de riscos e controle de qualidade são etapas indispensáveis para reduzir incertezas, evitar desperdícios e garantir segurança. Quando o planejamento falha, os resultados aparecem rapidamente: atrasos, aumento de custos, retrabalhos e, em situações mais graves, acidentes.
Ainda convivemos com deficiências de planejamento em nossas cidades, na mobilidade urbana, no saneamento, na infraestrutura, na educação e, muitas vezes, até na administração da própria vida financeira. Depois, passamos anos tentando administrar consequências que poderiam ter sido evitadas. Não por acaso, muitas decisões públicas surgem apenas quando a crise já está instalada. Enchentes aceleram obras emergenciais, secas reabrem discussões sobre recursos hídricos, apagões impulsionam investimentos e tragédias revelam a ausência de manutenção e planejamento.
Os países que mais prosperaram não eliminaram completamente os problemas. Tornaram-se melhores porque aprenderam a antecipá-los.
A natureza também costuma avisar.
Vem aí o El Niño.
Vamos planejar ou, mais uma vez, improvisar?

José Ribeiro de Miranda
Engenheiro Civil
Presidente da ABRAEI – Associação Brasileira dos Engenheiros Independentes

1 Comment
Ótimo artigo. Congratulações