Gol de Placa.
A expectativa que supera as dez mil mortes por mais uma tragédia na Venezuela é extremamente impactante. Como agravante, é muito pouco provável que haja uma estatística acerca da quantidade de vítimas que se tornarão PcD em razão de sequelas por traumatismos diversos. Amputações, esmagamentos, danos respiratórios e intelectuais. Claro que as perdas materiais são importantes demais, no entanto, com apoio e políticas positivas muito se pode recuperar, reconstruir. Nos outros casos, infelizmente, as perdas são definitivas.
Quando o poder público se interessa, verdadeiramente, em devolver à população, em forma de serviços e obras, o montante arrecadado a título de impostos, taxas e contribuições, tem-se a perspectiva de que os desastres inevitáveis, podem ser mais bem suportados. O problema maior reside na premissa de que muitos governos, com maior ênfase entre os populistas,
preferem se empenhar em suprir exclusivamente o suficiente para preservar o cidadão em sua condição de eterno dependente do Estado. Com isso, tais políticos acreditam ter o domínio da situação e da vontade dos hipossuficientes, pois aquela suposta “bondade” vem ao encontro dos anseios dessas pessoas. Naturalmente que a maioria desses carentes, PcD ou não, imaginam, em favor de seus supostos benfeitores, que aquilo que gostariam que fosse verdade seja, inequivocamente, verdade.
Nesse momento especial de Copa do Mundo de Futebol, temas de vital importância social são sublimados em favor dos dribles, passes, cruzamentos e defesas espetaculares. E, acima de tudo, dos “verdadeiros gols de placa”.
Uma experiência vivida recentemente me ajudou a recuperar um posicionamento que andava meio entorpecido pelas inúmeras demandas de um dia normal. Precisei deixar o carro por uma semana na oficina para reparos. Ao invés de utilizar as facilidades dos veículos por aplicativos, optei pelo transporte público. Além de PcD, já sou classificado como idoso e, portanto, mais essa restrição à condição física. Um dos primeiros impactos foi a acessibilidade nos ônibus. Os
degraus foram, provavelmente, desenvolvidos para escaladores. Qualquer que não tenha tais aptidões terá dificuldades de acesso. O problema seria bastante minimizado se houvessem plataformas, ou seja, pequenas elevações nos pontos de ônibus, como ocorre como acesso a trens e metrôs, onde os acessos são alinhados ao nível do piso dos veículos.
Em conversa como outros colegas com ou sem deficiências, avaliamos algumas questões que, a nosso ver, deveriam ser objeto de estudo na concepção de políticas públicas inclusivas a partir dos contrapontos observados. Por exemplo, estipular a gratuidade nos transportes urbanos ou interurbanos, deve levar em conta que as PcD e quaisquer pessoas com dificuldade de locomotora, precisam conseguir acessar esses coletivos. A proposição para reservar vagas de emprego deveria estar associada à promoção de capacitação dos atendidos. Usar um bom tempero em areia não a torna uma iguaria palatável. Não se pode pensar em uma política pública como um fim em si. Por isso é tão importante evoluir o conjunto de normas para se conquistar um padrão de excelência em cidadania que torne natural o respeito à pessoa e a valorização do que é público.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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