NA SEGUNDA-FEIRA, A VIDA CONTINUA

No domingo, Benévolo ainda estava eufórico com a convincente vitória do Flamengo sobre o Bahia, na Fonte Nova. O jogo ainda não terminara. O resultado mantinha o time na liderança do Brasileirão, mas ele resistiu até o último instante antes de mudar de canal. Queria acompanhar desde o início o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, transmitido pela Rede Bandeirantes. Fez isso, é verdade, meio a contragosto.

— Puxa vida, ainda bem que o debate atrasou um pouquinho! Como já tá 3 a 0 e o jogo tá quase acabando, vou cometer este pecadilho. Espero que valha a pena!

O debate começou em clima tenso. Gestos exaltados, provocações. Muitas acusações. Pouquíssimas propostas. O interesse em ver os dois candidatos frente a frente foi diminuindo à medida que o confronto avançava. Benévolo não escondia o desânimo.

— Pô, desse jeito não vão convencer ninguém, muito menos os indecisos! Vão é aumentar a abstenção. Que fiasco!

Depois de quase duas horas, vieram as considerações finais. Nenhuma novidade.

— É, o trem tá feio! A audiência deve ter sido boa, muito boa mesmo. O país parou para assistir ao debate. Mas a troco de quê? Pouca coisa foi dita que pudesse mudar a intenção de voto. Perdeu-se, sim, uma grande oportunidade. Acho até que o resultado pode ter sido negativo para os dois candidatos. É capaz de ter aumentado ainda mais a rejeição. Que desastre!

Desligou a televisão e foi até a cozinha. Preparou um sanduíche de pernil, passou bastante maionese no pão e acrescentou rodelas de tomate italiano. Regou-as com azeite extravirgem, salpicou um pouco de sal e pingou algumas gotas de pimenta Tabasco. Era um de seus lanches preferidos. Pegou uma cerveja bem gelada e sentou-se à mesa. Deu a primeira mordida, fechou os olhos e saboreou tudo sem pressa.

— Tem certas coisas que são deliciosas! Ainda mais quando a gente tá com fome! Um pãozinho francês quentinho é um dos meus pontos fracos. Haja salada depois pra compensar e não pesar na balança!

Satisfeito, voltou à sala e se acomodou em sua poltrona predileta. Faltava uma semana para a eleição, e ninguém sabia ao certo quem venceria. As pesquisas apontavam uma disputa apertada. Mas outra coisa começava a incomodá-lo ainda mais que o resultado das urnas.

— E depois disso tudo? Quando é que esse povo vai voltar a se entender?

O debate insistia em voltar à sua cabeça, mas já não eram as acusações dos candidatos que o incomodavam. Era o que vinha acontecendo com as pessoas. De repente, amigos e conhecidos que até pouco tempo mal falavam de política tinham um candidato para defender e outro para atacar, uma mensagem para compartilhar, uma denúncia para espalhar. Nas redes sociais, a disputa fervilhava. E as propostas pareciam ter ficado em segundo plano.

— Impressionante! Tem gente que parecia acomodada e, de repente, virou cabo eleitoral da noite pro dia. E com uma disposição que, se fosse pra resolver os problemas do país, não sobrava um! Não sobrava, mesmo!

Sorriu com a própria observação, mas logo ficou sério. Afinal, não era ruim que as pessoas se interessassem pela política. Pelo contrário. A gente vivia reclamando que os brasileiros não participavam, não cobravam, não se mobilizavam. Agora que estavam mobilizados, qual era o problema?

Pensou um pouco.

— Talvez o problema não fosse a paixão, mas o que se fazia com ela. Muitas vezes, a paixão é cega e não deixa o sujeito enxergar o próprio rabo!

Benévolo fez uma careta, surpreso com a própria linguagem.

— Cacete, acho que agora extrapolei! Calma, violência! Não é para tanto.

Conhecia pessoas que, até pouco tempo, conviviam sem maiores problemas, mas agora mal conseguiam conversar sobre política sem acabar discutindo. Brigando até. Algumas pareciam dispostas a colocar amizades de anos em risco por causa de uma eleição. Gente que havia compartilhado alegrias, dificuldades e até momentos muito duros agora mal tolerava uma opinião diferente.

— Será que valia a pena?

Ele próprio não concordava com tudo o que ouvia dos amigos. Longe disso. Às vezes tinha vontade de interromper, contestar, perguntar de onde haviam tirado certas certezas. E nem sempre conseguia ficar calado.

— Ah, Benévolo, vê se cresce! Ninguém é obrigado a pensar igual a você. Que seria do amarelo se todos só gostassem do azul? — resmungou, dando uma bronca em si mesmo.

A constatação era simples. O difícil era colocá-la em prática quando a conversa esquentava e cada um tinha certeza de estar com a razão. Ele sabia bem como era isso.

Mas havia uma coisa que não lhe entrava na cabeça: como alguém podia considerar um amigo uma pessoa decente durante tantos anos e, de repente, achar que ele não prestava mais porque votaria no candidato errado?

Claro que as escolhas políticas tinham consequências. Não dava para fingir que tanto fazia quem governasse o país. Certamente que não. Mas será que uma divergência eleitoral precisava apagar tudo o que duas pessoas haviam vivido juntas? Isso lhe parecia demais. E como.

— Que porra de democracia é essa, em que não se aceita que o outro pense diferente?

Levantou-se para pegar água. Voltou, acomodou-se novamente e continuou pensando. A eleição acabaria dali a poucos dias. Apenas um candidato venceria. E depois? Os amigos deixariam de se falar? Parentes continuariam se evitando? Os vizinhos ainda ficariam a se olhar de cara feia?

O país não ia mudar de endereço. Nem as pessoas deixariam de precisar umas das outras.

— No fim das contas, vamos continuar todos no mesmo barco. E não adianta ficar brigando pra ver quem fica com o remo se ninguém quiser remar!

A imagem o fez sorrir. Mas a coisa não era tão simples. Não era indiferente quem ganhasse a eleição. O presidente tomaria decisões que afetariam a vida de milhões de pessoas. Benévolo também tinha suas convicções e não gostava de ouvir certas opiniões. Ainda assim, precisava reconhecer que nem sempre conseguia praticar a tolerância que esperava dos outros.

Além da eleição, os velhos problemas continuariam lá: saúde, educação, segurança, contas públicas. Nada desapareceria na manhã seguinte à votação. E não seria com metade do país chamando a outra de inimiga que as coisas ficariam mais fáceis.

Pensando nos quatro anos seguintes, Benévolo não conseguia ser otimista. E não era uma questão de preferência eleitoral. Qualquer que fosse o vencedor de domingo, o país teria pela frente uma conta difícil de fechar. A situação fiscal já era preocupante e as promessas de novos gastos se multiplicavam na reta final da campanha, sem que se explicasse como seriam financiadas. Era o populismo fiscal em ação. Passada a euforia da vitória, a realidade acabaria se impondo.

Benévolo balançou a cabeça, num gesto de desânimo.

— É, o bicho vai pegar! Os próximos quatro anos serão de arrocho e sacrifícios. Não dá para gastar mais do que se ganha por muito tempo. Uma hora a conta chega — e chega com juros!

Sabia que os graves problemas do país não tinham solução fácil, pelo menos no curto prazo. Temia, porém, que a conta acabasse recaindo sobre todos, sobretudo sobre quem tinha menos condições de pagá-la.

— Não vai ser fácil! No fim, a conta sempre sobra pra quem vive do próprio trabalho!

Na sexta-feira haveria outro debate, desta vez na Globo. Ainda esperava que os candidatos aproveitassem a oportunidade para apresentar propostas e esclarecer suas diferenças. Quem sabe, dessa vez, aprendessem a debater? Os indecisos mereciam mais do que acusações e provocações.

— Vamos ver se agora sai alguma coisa que preste! E olha que será o último debate do Lula como candidato a presidente, independentemente de quem ganhar! Foi o que me disse um velho amigo. Já pensou? Um dia nossos filhos e netos vão estudar esse período na escola.

Benévolo sorriu. Pelo menos, no próximo debate, não teria de escolher entre os candidatos e o Flamengo! Aí, sim, seria difícil! Dessa vez, talvez ficasse só com o seu time do coração.

Foi até a varanda e olhou para o céu escuro. A lua crescente mal aparecia. No próximo domingo, estaria quase cheia. Quem sabe fosse um bom presságio? Pensou na eleição, nas conversas atravessadas, nas amizades estremecidas.

Coçou a cabeça e resmungou:

— Uai, gente! Domingo um ganha e o outro perde. É simples assim. Mas, na segunda-feira, a vida continua. Os boletos vão continuar chegando, o trânsito vai continuar infernal, e quinta-feira sempre tem aquele chopinho com os amigos. A gente vai continuar amando e se alegrando com os sorrisos das crianças. E precisando uns dos outros. Ou será que o sujeito só presta se votar no mesmo candidato que eu?

João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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