NÃO DÁ PARA SUBESTIMAR O ELEITOR

João Régis Magalhães

— Definitivamente, não dá para subestimar o eleitor!

Benévolo estava sentado na sala de casa, diante da televisão ligada e do computador aberto sobre a mesa. Olhava, espantado, para os números finais do primeiro turno das eleições de 2026. Na televisão, os comentaristas analisavam os resultados; na tela do computador, os números não paravam de mudar. Benévolo alternava os olhos entre as duas telas, tentando acompanhar a apuração.

— É inacreditável! Em poucas horas a gente já conhece praticamente todos os resultados. O trem é doido!

Ele estava orgulhoso da velocidade com que a Justiça Eleitoral coletava, processava e apurava os votos no Brasil. Em pouco mais de duas horas e meia do encerramento das urnas, já se conheciam praticamente todos os resultados.

— Caraca, é impressionante como é rápido! E olha que tem voto para caramba para se contar! Dizem que são mais de 150 milhões de eleitores em mais de 5.500 municípios. Os números são gigantes.

Desde pouco depois das cinco da tarde, vinha acompanhando a apuração. Enquanto ouvia as notícias, conferia a evolução dos resultados nos Estados que mais lhe interessavam. Eram muitas informações, que se sucediam rapidamente. No Centro-Oeste e no Sul, a apuração avançava depressa. No Nordeste e em São Paulo, era mais lenta.

Já eram quase 20h30 quando a “boca do jacaré” parou de se fechar. A diferença entre os dois candidatos enfim se estabilizou. Com as urnas apuradas, veio a confirmação do inesperado.

Benévolo fora surpreendido pela vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula. Nenhuma pesquisa conseguira prever que ele terminaria o primeiro turno com uma frente de mais de dois milhões de votos.

— É bem possível que tenha sido o voto útil. Os outros candidatos minguaram. O Cury chegou a ter 10%. O Caiado, 5%. Com as urnas abertas, tinham pouco mais de 2% cada.

Mas a surpresa maior estava nos números do Senado.

— É evidente que aí tem um recado de parte da sociedade. O voto parece ter sido, também, uma resposta às ações do Supremo. Não foi simplesmente um voto ideológico. Não tem tanta gente de direita no Brasil. Olha que tem alguma coisa a mais aí.

Entre os eleitos para o Senado, predominavam aqueles que tinham como principal bandeira de campanha a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo.

— O povo anda incomodado com alguns ministros. Também não era para menos. Depois de tudo que alguns deles aprontaram… O que eu acho é que o eleitor não escolheu o senador pelas suas ideias ou pela sua biografia.

Fez uma pausa.

— O eleitor parece que votou foi com o fígado.

Benévolo ficou alguns minutos olhando para os resultados.

— As urnas trazem muitos recados…

Coçou a cabeça, fechou os olhos e suspirou profundamente. Abriu os olhos.

— Talvez tenha sido o excesso de soberba…

Apoiou o queixo na mão direita.

— Soberba, sem dúvida, não faltou. “Mereço ser reeleito pelo conjunto da minha obra.” Não preciso dizer o que vou fazer. Que bobagem…

Fez uma pausa.

— Só que as pessoas até reconhecem o passado, mas votam é no futuro. Simples assim. Parece ter sido este o recado das urnas.

Ajeitou-se na cadeira.

— Mas não foi só isso… O fato de também ter ficado fechado em copas contribuiu. E como. Poucas vozes conseguiam ser ouvidas sem o sotaque petista. Isso pode ter afastado boas ideias.

— A campanha de primeiro turno parecia mais de prestação de contas e de ideias requentadas.

— E tudo indica que o eleitor quer mudança…

— Não dá para nadar contra a maré.

Benévolo voltou os olhos para a tela do computador. Os resultados para a Câmara e, principalmente, para o Senado chamavam sua atenção. A direita havia conquistado uma presença expressiva. No mapa, o país estava dividido de uma maneira que se repetira nas duas últimas eleições presidenciais.

— E o Nordeste continua sendo outro país eleitoral… As maiores vitórias do PT se concentraram ali.

Benévolo fez algumas contas de cabeça. A nova composição do Senado poderia mudar muita coisa a partir de 2027. Um número expressivo de novos senadores chegava com a disposição declarada de enfrentar o Supremo.

— Se essa turma cumprir o que prometeu, vai ter pano para manga.

Pensou nos pedidos de impeachment de ministros do Supremo que não haviam sido levados à votação no plenário do Senado.

— Talvez a nova composição do Senado, em 2027, eleja um presidente da Casa mais alinhado ao pensamento predominante.

Coçou o queixo.

— E pode até ter afastamento de ministros. Seria uma situação inédita.

— Mas será que é disso que o país mais precisa?

Balançou a cabeça negativamente.

— Talvez o problema não seja apenas esse.

— Uma coisa é mudar quem ocupa o poder. Outra é mudar a forma como o poder funciona.

Apoiou novamente o queixo na mão.

— Não adianta trocar os ministros, nem trocar os senadores, nem trocar o presidente, se continuarmos com as mesmas regras.

— O Judiciário precisa ser reformado. Principalmente as cortes superiores.

— Menos decisões monocráticas. Mandato para ministro. Critérios mais objetivos para a escolha…

Parou.

— Quem chega a uma corte superior precisa ter uma trajetória que justifique estar ali. Não pode prevalecer apenas o critério político.

Benévolo recostou-se na cadeira e ficou alguns segundos olhando para a tela.

— Eu não estou triste. Também não estou alegre. Estou preocupado.

Fez uma pausa.

— Nenhum dos meus votos se elegeu. Nenhum. E olha que eu votei consciente!

Deu um muxoxo e ajeitou-se na cadeira.

— Mas continuo acreditando que a eleição é o melhor instrumento que a democracia encontrou para escolher quem vai governar o país.

Olhou novamente para os números.

— O eleitor pode errar. Pode acertar. Mas é ele quem deve decidir.

Pensou em um eventual quarto governo Lula.

— Também não consigo enxergar, num eventual quarto governo Lula, disposição para enfrentar os problemas realmente difíceis do país. Talvez seja mais do mesmo.

Fez uma pausa.

— E, do outro lado, não consigo enxergar em Flávio Bolsonaro experiência e preparo suficientes para governar um país tão complexo. E certamente há muita coisa a ser explicada sobre sua trajetória.

Benévolo respirou fundo.

— A situação não tá fácil.

— Como vai ficar o país?

A pergunta ficou suspensa no silêncio da sala.

Os números continuavam diante dele. Já não enxergava apenas vencedores e derrotados. Pensou nos seus próprios votos, todos derrotados. Pensou nos milhões de votos que haviam produzido aquele resultado.

Olhou mais uma vez para a tela do computador.

Talvez a eleição tivesse apenas começado a responder algumas perguntas. Outras, muito mais difíceis, ainda estavam por vir.

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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.


João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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