Negociações com o universo

João Régis Magalhães

Benévolo nunca se sentira tão tranquilo. Superada a Escócia, o Brasil teria pela frente o Japão nos dezesseis avos de final. Para ele, era quase um presente da tabela. Talvez, depois do Haiti, o adversário mais fácil que a seleção encontraria no caminho rumo ao hexa.

Acreditava que enfrentar a Holanda, ou mesmo a Suécia seriam adversários mais difíceis. 

Nos dias que antecederam a partida, tinha a impressão de que o universo conspirava a favor do Brasil. Contra os japoneses, a classificação lhe parecia mera formalidade. Nada impediria a seleção de seguir adiante.

— Se fosse campeonato de judô, até admito que complicassem. Mas futebol é outra conversa. A Terra do Sol Nascente não faz frente à seleção brasileira — concluía, satisfeito, em seus intermináveis diálogos consigo mesmo.

Apesar de tanta convicção, um pensamento teimoso resolveu incomodá-lo. Copa do Mundo em mata-mata não costuma distribuir vitórias de presente. Favoritos já haviam voltado para casa mais cedo por muito menos.

— Será que o Japão pode aprontar alguma?

A dúvida durava apenas alguns segundos.

— Claro que não. O time de Ancelotti resolve isso sem maiores aborrecimentos.

E assim transcorreram os dias entre a vitória sobre a Escócia e o confronto com o Japão. Benévolo andava leve, despreocupado, quase feliz por antecipação. Encarava a partida como um compromisso meramente  protocolar antes das oitavas de final. 

Ao conferir a tabela da Copa, percebeu um detalhe que lhe arrancou um sorriso confiante. O jogo aconteceria em 29 de junho, dia de São Pedro.

Não podia ser simples coincidência.

Primeiro Santo Antônio. Depois São João. Agora São Pedro.

Na cabeça de Benévolo, os santos juninos pareciam trabalhar em regime de plantão pela Seleção Brasileira. Santo Antônio abrira os caminhos. São João mantivera acesa a chama da campanha. Restava a São Pedro, guardião das chaves do céu, abrir também as portas das oitavas de final.

Não teve dúvidas. Escolheu no seu oratório uma das imagens que possuía de São Pedro e separou-a para ajudar o Brasil durante a partida.

Na manhã do jogo, decidiu mudar a rotina para preservar a boa sintonia. Como a seleção iria jogar às quatorze horas de Brasília — uma da tarde na Flórida, local do jogo — certamente os jogadores almoçariam bem cedo, provavelmente no horário em que costumavam tomar café da manhã. Fez a mesma coisa. Concluiu que seria deselegante com a sorte agir de maneira diferente.

Como estava programado, na noite anterior, passou em um restaurante japonês e comprou uma seleção caprichada de sushi, sashimi, uramaki e hossomaki. Guardou tudo cuidadosamente na geladeira, como quem protege um amuleto.

Ao acordar, arrumou a mesa com um esmero quase cerimonial. Separou uma travessa de porcelana para as peças, um pequeno recipiente para o shoyu, dispensou os talheres e posicionou um par de hashis — ou waribashi, como fizera questão de aprender nas suas investidas na culinária japonesa. Antes da primeira garfada — ou melhor da primeira pinçada — fez uma discreta reverência para ninguém em particular.

Pouco antes da partida, acomodou-se no lado direito do sofá. A bandeira brasileira estendida na parede da sala, exatamente na mesma posição dos jogos anteriores. O terço e o patuá da sorte nas mãos. A imagem de São Pedro colocada estrategicamente ao lado da TV. Vestia a camisa amarela que já não conhecia água havia vários dias. Lavar o uniforme em plena Copa seria uma imprudência. Superstição, todos sabem, não combina com sabão.

Desta vez, resolveu reforçar o ritual. Amarrou as fitinhas do Senhor do Bonfim, nas cores branca e vermelha da bandeira japonesa, aos hashis. Em seguida, fincou-os verticalmente numa tigela de arroz e colocou ao lado de São Pedro.

Um antigo vizinho o havia ensinado, em uma certa ocasião em que estava aflito e precisando dos préstimos do além, a fazer uma mandinga japonesa que, segundo um amigo dele que conhecia uma família japonesa, se constituía em fincar os hashis numa posição muito específica, conhecida apenas pelos iniciados. A simpatia era das mais poderosas e certeiras do Oriente. Emanava um azar monumental para quem fosse dirigida aquela magia.

Hesitou.

Por um instante, Benévolo pensou em desistir da ideia. Mas logo concluiu que não podia desperdiçar qualquer oportunidade de enfraquecer o Japão. O Brasil podia estar dependendo dele.

Ajeitou-se no sofá, respirou fundo e sorriu. Havia feito tudo o que estava ao seu alcance. Dali em diante, o destino precisava cumprir a sua parte.

Quando o árbitro autorizou a saída de bola, Benévolo já não tinha a menor dúvida. A classificação do Brasil era apenas questão de noventa minutos. 

Entretanto, o tempo passava, e o domínio brasileiro produzia pouco mais que espuma. A seleção mantinha a posse de bola, trocava passes, rondava a área japonesa, mas esbarrava numa defesa que parecia jogar com treze homens. Benévolo começou a se remexer no sofá. Ainda não era preocupação. Apenas um leve incômodo. Grandes vitórias também costumam demorar para amadurecer.

Mas bastou um erro de passe no meio do campo. O Japão acelerou o contra-ataque e Kaishu Harbor arriscou de longe. O chute nem parecia tão perigoso. Ainda assim, o goleiro brasileiro pulou atrasado e a bola morreu estufando as redes.

O relógio marcava vinte e nove minutos do primeiro tempo.

Benévolo congelou.

Ficou alguns segundos olhando fixamente para a TV, como quem aguardava o árbitro interromper a partida para anunciar um equívoco qualquer. Um impedimento descoberto pelo VAR. Uma invasão de campo. Um toque de mão ocorrido três passes antes. Qualquer coisa que devolvesse alguma lógica ao universo.

Nada aconteceu.

Levantou-se. Sentou novamente. Mudou para o lado esquerdo do sofá. Voltou para o direito. Esfregou as mãos. Alisou o patuá e dedilhou o terço. Cruzou os dedos. Orou aos céus. Respirou fundo. Conferiu a posição da bandeira. Passou o dedo sobre o escudo na camisa amarela que já não conhecia água havia dias. Olhou para os hashis fincados na tigela de arroz.

Tudo permanecia exatamente onde deveria estar.

— Não… não pode ser… Será que resolveram repetir Pearl Harbor justamente hoje? E logo contra nós.

Pela primeira vez desde o início da Copa, Benévolo desconfiou de que o universo talvez tivesse cometido um erro administrativo.

Aproximou-se da mesa e examinou os hashis como um perito diante de uma cena de crime.

— Será que as fitinhas entenderam tudo ao contrário?

As fitinhas do Senhor do Bonfim continuavam firmemente amarradas. A bandeira permanecia na parede. A camisa seguia invicta contra água e sabão. O terço e o patuá em suas mãos. Nada explicava aquele desastre.

Voltou os olhos para a imagem do santo do dia.

— Ê, São Pedro, por quê? 

 Não ouviu resposta.

Aquilo, sim, era inexplicável.

— Logo hoje São Pedro resolveu impedir o gol do Brasil e facilitar o do Japão?

Benévolo balançou a cabeça, inconformado.

— Não… isso não pode estar acontecendo.

Tentou encontrar uma justificativa plausível.Talvez São Pedro tivesse se distraído abrindo os portões do Paraíso para algum recém-chegado exatamente no instante do contra-ataque japonês. Ou quem sabe estivesse atendendo São João e Santo Antônio, encerrando oficialmente os festejos juninos.

Eram explicações razoáveis. 

Porque, definitivamente, a culpa não podia ser do Brasil. Nem dele. Muito menos dos santos.

O intervalo chegou antes que Benévolo conseguisse reorganizar sua própria teologia futebolística.

Inquieto. Não conseguia sossegar. Deu alguns passos pela sala enquanto a partida não recomeçava. Parou diante do hashis fincados na tigela de arroz. Pensou em retirá-los. Não retirou. Mas desamarrou uma das fitinhas do Senhor do Bonfim. Arrependeu-se imediatamente e tornou a amarrá-la, com um nó ainda mais apertado. 

Dirigiu-se até a imagem de São Pedro, ergueu o dedo em riste e disse:

– São Pedro… espero que o senhor saiba exatamente o que está fazendo.

A TV roubou sua atenção. O jogo recomeçara.

Resolveu permanecer em pé. Talvez em pé atraísse a sorte que faltava naquele dia.

Viu Endrick substituir Paquetá, machucado, e respirou aliviado. Provavelmente esse fosse o sinal que ainda faltava. Afinal, depois de tantos avisos enviados pelos céus, Deus certamente não abandonaria a Seleção Brasileira por causa de um gol japonês.

O Brasil jogava melhor e quase empatou a partida aos três minutos, numa cabeçada de Casemiro que um zagueiro japonês salvou em cima da linha do gol.

O grito de gol ficou engasgado e Benévolo reclamou:

— Porra, até a linha do gol resolveu favorecer o Japão.

Minutos depois, novo cabeceio de Casemiro, aproveitando um lançamento preciso de Gabriel Magalhães, e desta vez a bola entrou.

— Gooooollll — berrou um ensandecido Benévolo fazendo as pazes, em poucos segundos, com as forças do universo das quais havia desconfiado até então. 

O empate devolvera a confiança ao Brasil.

Três minutos depois, o genial Vini Junior deixou três marcadores para trás e acertou um chute que só não entrou porque o goleiro japonês milagrosamente conseguiu um leve desvio antes de a bola beijar a trave. 

—  Essa bola não entrou! Não é possível! Seria um gol de placa. 

Fechou os olhos. Respirou fundo.

— Não… isso já é excesso de mandinga.

Pensou melhor.

— Ou excesso de goleiro.

E seguiu em pé, alternando fé e descrença. 

Os minutos passavam depressa.

A prorrogação já começava a parecer inevitável.

Benévolo voltou a negociar silenciosamente com o universo. Prometeu nunca mais desconfiar de São Pedro. Prometeu lavar a camisa… Bem, essa promessa ele preferiu deixar para outra oportunidade.

Foi então que, já nos acréscimos, Bruno Guimarães encontrou Martinelli dentro da área.

O chute saiu firme. 

A rede balançou. 

Por alguns segundos, Benévolo permaneceu imóvel, como se aguardasse o VAR descobrir algum detalhe para estragar sua felicidade.

Quando viu o juiz apontar para o centro do campo, enfim explodiu.

— É o Brasil! Vai Brasil! O hexa é nosso.

Aos poucos, foi recuperando o fôlego.

Olhou para os hashis, ainda enfeitados com as fitinhas. Dessa vez preferiu não mexer em nada.

Só então caminhou até a imagem de São Pedro.

— Desculpe, São Pedro. Julguei o senhor antes da hora.

Sentou-se no sofá, pegou a tabela da Copa e procurou o próximo adversário.

Noruega ou Costa do Marfim.

Benévolo sorriu. Não fazia diferença. Fosse quem fosse, já sabia exatamente o que fazer.

Manteria tudo o que vinha dando certo e iria pesquisar na internet a culinária, as crenças populares e qualquer superstição que pudesse colaborar com a Seleção contra o próximo adversário. 

Porque Benévolo sabia.

Em mata-mata de Copa do Mundo nunca é demais contar uma ajudinha do universo. 

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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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