Nenhuma história permanece no começo

 João Régis Magalhães

Ainda sonolento e com um pouco de dor de cabeça, depois de uma noite de insônia em que só conseguira apagar por exaustão, Juarez tomava um café forte e tentava decifrar o que realmente acontecera na noite anterior. A conversa com Lídia continuava martelando em sua cabeça.

Não, ele não podia concordar com tudo que ela lhe dissera. Algumas acusações lhe pareceram exageradas, outras injustas. Mas havia frases que permaneciam ali porque carregavam aquele desconforto particular das coisas que, mesmo ditas com raiva, encontram lugar para pousar.

Ficara inicialmente em choque. Sentira-se fragilizado. Nunca alguém conseguira invadir suas linhas de defesa daquela forma, nem fazer um diagnóstico tão preciso sobre ele. Quando recebeu aquele feedback, que chegou a sua revelia, sentiu-se exposto e envergonhado, como se estivesse diante de um espelho que insistisse em refletir aquilo que preferia não ver. O que mais o perturbava era perceber que Lídia não lhe apresentara defeitos desconhecidos; apenas iluminara traços que ele próprio aprendera a esconder de si mesmo. Juarez sempre acreditara que sua insegurança estava domesticada pelos longos anos de terapia. Agora, porém, sua autoconfiança parecia desmoronar silenciosamente, como um castelo de cartas.

Lídia entrara em sua vida sorrateiramente, sem pedir licença e, aos poucos, foi tomando as rédeas. Juarez a conheceu e logo se apaixonou. No começo, achava que se tratava de uma simples atração física, apenas sexo, mas, em pouco tempo, passou a acreditar ter encontrado a sua alma gêmea. Era uma paixão avassaladora, que mexeu fortemente no emocional de Juarez e o levou a romper com o seu modo de vida anterior.

Até então, vivera durante vinte anos ao lado de Luciana. Um casamento estável, previsível, construído entre filhos, rotina e pequenas renúncias silenciosas. Não era infeliz. Talvez apenas acomodado. Com Lídia, porém, experimentou novamente a sensação vertiginosa de estar vivo.

A reação da família à separação repentina foi a pior possível. Dos amigos, muito poucos tiveram empatia por ele. Mas, naquele momento mágico, em que se sentia completamente enfeitiçado pela paixão, pouco importava o que pensavam ou deixavam de pensar os outros. O que ele queria era apenas Lídia: estar ao seu lado, sentir seu cheiro, o seu gosto, poder desfrutar de sua companhia, de sua inteligência, de seus carinhos. Lídia era a única coisa que parecia valer a pena para Juarez naquela época de sua vida.

Entretanto, apesar de viver aqueles dias em estado de êxtase, uma luzinha amarela teimava em piscar como um alerta. O seu sexto sentido queria dizer alguma coisa. Ele nunca se sentira tão vulnerável, tão refém de um sentimento. Sentia-se débil, submisso — uma marionete. A perda do controle da própria vida incomodava-o terrivelmente.

Depois de alguns meses vivendo com Lídia, Juarez começou a se sentir entediado com a nova vida. A rotina e a personalidade egocêntrica da mulher passaram a asfixiá-lo. A paixão e o desejo iniciais esvaeciam-se juntamente com a fascinação, que agora parecia ter gosto de sabão.

A bem da verdade, partira dele a iniciativa daquela conversa derradeira. Estava disposto a encerrar a relação. Nas primeiras frases, em que introduziu o assunto com cautela, Lídia mal lhe deu atenção.

Até que ela percebeu.

Primeiro veio o desespero.

Vitimizou-se, pediu piedade, declarou amor incondicional. Disse que não merecia ser descartada como uma mobília velha. Perguntou o que fizera para merecer aquele castigo. O que faria da própria vida sem ele. Em determinado momento, chegou a dizer que se mataria caso fosse abandonada.

Juarez assistiu a tudo impassível.

Estava decidido.

Foi então que ela se transformou.

Quando percebeu que ele não voltaria atrás, deixou de ser vítima e virou algoz. Parou de pedir e começou a acusar. Chamou-o de canalha. De homem fraco e covarde. Disse que ele não sabia o que queria. Que tratava pessoas como joguetes. Que abandonara um casamento longo sem arrependimentos e sem respeito pela própria família. Disse que ele chamava egoísmo de liberdade e impulsividade de coragem.

Disse ainda que ele parecia necessitar viver apenas e eternamente o começo das coisas. Que confundia paixão com amor e deslumbramento com felicidade. Que era fogo de palha. No fundo, não suportava o instante em que as relações deixavam de fazê-lo sentir-se o centro das atenções e não eram mais percebidas como novidade. Entravam na rotina.

E terminou com uma frase que, naquela manhã, voltava inteira, sem pedir licença:

— Você vai embora quando a paixão vira rotina.

Juarez tomou um gole do café.

Reagiu com uma careta, ao perceber que o café havia esfriado.

Ficou olhando para a xícara, como estivesse buscando ali respostas, e tentou responder mentalmente às acusações. Tentou argumentar que não era justo comparar situações tão distintas. Quis afirmar que o casamento com Luciana havia sido outra história. Que na época do início do relacionamento com Lídia estava perdidamente apaixonado. Que precisava viver aquilo de alguma maneira, desde que fosse intensamente.

E, de repente, sem que ele esperasse, uma lembrança atravessou as suas argumentações mentais.

Recordou-se do dia em que saiu de casa.

Luciana não gritara. Não o ofendera. Não tentara segurá-lo. Apenas perguntara, num fio de voz:

— O que foi que eu fiz de errado?

Naquele dia, ele não respondeu.

Achou que não devia explicações para ninguém.

Agora, tantos meses depois, sentado diante de um café que começara quente e terminava frio e horroroso, teve um insight, uma ideia simples demais para ser confortável:

Talvez o problema nunca tivesse sido Lídia. Nem Luciana.

Talvez jamais tivesse abandonado uma mulher por outra. Talvez estivesse apenas perseguindo, de relação em relação, aquela sensação inicial que chamava de amor sem nunca a examinar direito. A velha e recorrente sensação que, desta vez, a vida finalmente começaria.

Mas nenhuma história permanece no começo.


Quem leu É da Natureza Humana talvez reconheça algo familiar em Juarez, Lídia e Luciana.

Alguns personagens não terminam quando o livro acaba.


João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

Facebook: @regismagalhaes

Instagran: @joao_regis_magalhaes

Related post

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *