Paris 40 Graus 

A cidade-luz descobre que o termômetro também é político

José Teixeira

Às quatro da tarde, a Torre Eiffel fecha as portas. Não por greve, não por atentado, não por nenhuma das crises às quais Paris já nos acostumou. Fecha porque o ar, simplesmente, está intragável. Em junho de 2026, a capital francesa registrou o dia mais quente desde que a França começou a medir sua própria temperatura, em 1947. Os parisienses, que historicamente toleram quase tudo, aprenderam a abandonar a rotina, fechar as venezianas ao meio-dia e torcer para o anoitecer.

Setenta anos atrás, um filme brasileiro estourava nas telas parisienses contando uma história de calor muito diferente. Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, primeiro grande título do Cinema Novo, denunciava a pobreza, a discriminação racial e a falta de perspectiva de um Brasil que suava sob o sol e sob a desigualdade. Paris assistiu, comoveu-se, talvez tenha até se sentido um pouco superior, pois, afinal calor de 40 graus era problema de país tropical, não de metrópole europeia com inverno de catálogo e outono de cartão-postal.

Setenta anos depois, a ironia fechou o círculo. Paris também chegou aos 40 graus. E, ao contrário do Rio, não tem praia, não tem chope gelado, não tem a cultura urbana erguida em torno do calor. Tem telhados de zinco, prédios do século XIX tombados pelo patrimônio histórico, e uma resistência cultural quase religiosa ao ar-condicionado, símbolo, para muitos franceses, de desperdício energético e mau gosto americano.

O crime evitável

O drama do Rio de 1955 era, em boa medida, um produto da história e da estrutura social, evitável por meio de política pública, redistribuição, urbanização decente. O drama de Paris em 2026 tem outra origem, mas não a que se costuma imaginar.

A Terra nunca foi um sistema estável. Nasceu incandescente, esfriou ao longo de eras até virar bola de gelo mais de uma vez, descongelou, e segue, há bilhões de anos, alternando frio e calor em ciclos próprios, estribada em mudanças arbitrárias de órbita,  em mau humor do sol, e erupções de vulcões que não pedem licença a ninguém. 

Não dá para mandar a natureza se comportar; ela faz isso por conta própria, na escala de tempo que lhe convém, que costuma ser de milhares ou milhões de anos. É aqui que a história muda de personagem: o salto de temperatura que sufoca Paris não tem a assinatura lenta desses ciclos. Tem a assinatura, bem mais rápida e bem mais recente, do carbono que a civilização industrial lançou na atmosfera em pouco mais de um século. Isso a ciência consegue medir e separar do ruído natural com bastante precisão.

Dizer apenas “a humanidade” também simplifica demais. Por trás da estatística agregada estão decisões de governos, indústrias e, em menor escala mas não irrelevante, de cada cidadão que opta por um consumo, um trajeto, um descarte. A responsabilidade pelo equilíbrio ambiental, sendo coletiva, não deixa de ser também individual; é cômodo demais terceirizá-la inteira para “o sistema”. Ainda assim, a conta chegou, e veio com juros: ondas de calor mais frequentes, mais longas, mais letais. A França já viveu o suficiente desse pesadelo para batizá-lo: esta foi a 51ª onda de calor catalogada desde 1947, a segunda apenas neste verão. Sabe-se a causa predominante; a vontade de enfrentá-la, ano após ano, continua menor que o problema.

Quem sofre quando a cidade não foi feita para isso

Riad, capital da Arábia Saudita, chega aos 50 graus com o ar de quem está simplesmente cumprindo a agenda do dia. O Rio aos 40 vira praia. Paris aos 40 vira tragédia silenciosa; nem tão silenciosa assim. Somente entre 18 e 23 de junho, a França contabilizou mais de 40 mortes por afogamento, a maioria de jovens que buscaram nos rios e canais um alívio que a infraestrutura urbana não oferece. Idosos morreram de calor. Duas crianças, esquecidas dentro de um carro em um estacionamento residencial, não resistiram. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu ativou o nível máximo de mobilização dos serviços de saúde, suspendendo cirurgias não urgentes para concentrar recursos no atendimento às vítimas do calor.

A arquitetura parisiense, projetada ao longo de séculos para reter calor e não para dissipá-lo, tornou-se uma armadilha térmica. Prédios com telhados de zinco superaquecem; quem mora nos últimos andares vive, na expressão de um morador, “cozinhando dentro de casa”. A instalação de ar-condicionado em edifícios históricos exige autorizações que poucos têm paciência ou tempo de obter. E mesmo quando é possível, persiste a contradição: o uso disseminado de aparelhos de ar-condicionado pode elevar em até 2°C a temperatura externa em certos bairros, agravando exatamente o problema que pretende resolver.

O governo reage como pode: centros de resfriamento, escolas com horários adaptados, reatores nucleares temporariamente desligados por precaução ambiental, painéis de metrô recomendando hidratação como se fossem alertas de guerra. São paliativos sensatos, mas paliativos. A cidade conta com um sistema de resfriamento urbano que bombeia água do Sena para refrigerar prédios públicos. Esse procedimento é eficiente, mas longe de alcançar os milhões de apartamentos residenciais onde, de fato, as pessoas dormem mal, suam muito e, em casos extremos, morrem.

Há quem aposte em soluções mais ambiciosas que o ar-condicionado de janela: isolamento térmico, telhados pintados de branco para refletir o sol, mais vegetação ao redor dos prédios, persianas que permanecem fechadas como hábito e não como exceção. Existem até experimentos de construções que dispensam ar-condicionado e aquecimento por completo, mantendo a temperatura interna estável o ano inteiro graças à espessura das paredes e à ventilação natural controlada por sensores. São, porém, soluções de longo prazo, pensadas para prédios novos. Mas Paris, cidade-museu, não se renova como uma metrópole qualquer. Não se demole um patrimônio do século XIX para erguer uma caixa bioclimática no lugar. Reforma-se, devagar, com autorização, com debate, com a paciência que o calor cada vez mais escasso já não concede.

O dilema que ninguém quer resolver

Há, por trás da elegância arquitetônica de Paris, um dilema nada elegante: reformar a cidade para o clima que já chegou custa caro, demora décadas e enfrenta tanto a burocracia do patrimônio histórico quanto a resistência cultural de uma população que ainda associa ar-condicionado a desperdício. Não reformar significa aceitar que, cada vez mais, o verão parisiense seja medido em mortos, não em graus.

Que não se condene a França, a China, os Estados Unidos nem qualquer outro país por crime contra o meio ambiente. Seria fácil demais, e covarde, eleger um vilão e seguir em frente como se a conta não fosse de todos. É, antes, um convite ao desconforto de uma pergunta sem resposta confortável. Em 1955, o Rio 40 Graus expunha um crime social que a sociedade brasileira poderia, em tese, ter evitado com vontade política e redistribuição de renda. Em 2026, Paris 40 Graus expõe um crime ambiental que toda a humanidade poderia, em tese, ainda evitar. Mas continua escolhendo, ano após ano, não evitar.

Qual dos dois crimes pesa mais: o da deterioração social que produziu o Rio quente e a desigual torturante, ou o da irresponsabilidade ambiental coletiva que está trazendo o mundo inteiro à beira do desequilíbrio? A pergunta não tem resposta fácil. Mas, enquanto ela permanecer sem resposta, o termômetro vai continuar subindo em Paris, no Rio, e em qualquer lugar que ainda acredite que o calor é um problema dos outros.

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