Rock, Tango, Samba e Bolero

A moça simpática e de caminhar leve transitava sua beleza, adornada por um vestido leve, colorido com temas florais, pela rua malcuidada que lhe antagonizava, suja, com cheiro ocre. O contraste fazia com que suas formas jovens, seu cabelo claro, com cachos brandos, seu rosto delicado e sorridente, suas pernas torneadas e seu tamanquinho de tom lilás se destacassem na paisagem disforme e triste.


Ela, graciosa, usava um fone de ouvido em que uma música antiga, um clássico do rock, remasterizada recentemente em uma releitura que lhe emprestava uma roupagem de modernidade, sem perder a essência.

Entre os poucos passantes, alguns lhe dirigiam o olhar admirado. Aquela cena pitoresca parecia aludir a uma tela de Caravaggio ou, quem sabe(?), mais atual, de Edward Hopper, como se os elementos disruptivos da composição não se mesclassem no ambiente. Como se o conjunto remetesse a uma colagem primária num caderno escolar.

Ainda há pouco, na livraria do tio, a algumas quadras dali, a conversa animada com um grupo eclético, em conhecimentos e faixa etária, era exatamente sobre música. Os ritmos, as letras, as melodias e os expoentes de cada gênero. Nacionais e internacionais.

Alguém comentou que a maioria das canções, até o início da década de 1990, tinha como tema as desilusões amorosas, os desenlaces, o sofrimento. As melodiosas letras davam a entender que o fim da relação significava também a impossibilidade de retomada do autocontrole para iniciar um novo ciclo em que outra pessoa pudesse ser tão querida ou amada quanto aquela que se foi. Algumas das famosas canções colocavam o protagonista como “capacho”, carente e dependente, ainda que dos restos de uma relação. Em tango (“Portero, suba e diga” – 1928; dos argentinos L. C. Amadori e E. de Labar); em bolero (“Inolvidable” – 1944; do cubano Julio Gutierrez); em samba (“A Flor e o Espinho” – 1957; de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito); para usar apenas alguns exemplos do doloroso sofrimento expresso pela não correspondência de um grande amor.

Ao fim da amigável conversa, a bela moça, já de saída e pouco antes de colocar os fones, me faz a pergunta que a incomodou em algum momento, mas que lhe pareceu pessoal demais para satisfazer a curiosidade em público. Como eu fazia – caso a questão não me ofendesse – quando queria “paquerar” (um termo comum em minha juventude, não da dela.) uma garota, se eu não conseguia dançar em razão de minha deficiência.

Disse a ela que, como em diversas situações na vida, PcD ou não, é preciso adaptar, alterar rotas, criar estratégias possíveis. Divergindo um pouco dos posicionamentos naquelas músicas, não se acomodar na sensação de fracasso. É importante reconhecer que não se ganha nem se perde sempre. Há espaço de crescimento e de sucesso quando se enfrenta com coragem e preparo as adversidades.

Tudo tem um preço, mas só algumas coisas têm valor. E a vida empresta armas e escudos àquele que se dedica e reconhece o próprio valor no processo natural de viver.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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