Tempo de colheita
Viver é acumular quilometragem. No entanto, para as Pessoas com Deficiência (PcD), a estrada da vida não possui apenas pedágios mais frequentes e caros; ela carece de acostamento mais amplo e sinalização de qualidade desde a largada. Se a automanutenção – a capacidade de prover o sustento próprio e gerir a rotina – já se assemelha a um instável malabarismo econômico na juventude, o passar dos anos transforma esse cenário já desfavorável, e frequentemente hostil, em um labirinto de barreiras arquitetônicas, sociais e financeiras.
A vulnerabilidade atinge o seu ápice quando a deficiência encontra o crepúsculo da existência, consequência natural da vida. É nesse ponto de inflexão que as palavras do filósofo Marco Antônio Cícero, em seu clássico tratado Saber Envelhecer (45-44 a.C.), ecoam com uma precisão cirúrgica e, por vezes, dolorosa: “Uma velhice miserável precisa se defender com palavras. Nem cabelos brancos, nem rugas podem reivindicar influência sobre si mesmo. É a conduta honrada dos dias passados que será recompensada com a influência na fase final da vida”.
O filósofo romano nos lembra que o respeito na velhice, para quaisquer pessoas, não é um automatismo biológico, mas uma colheita ética daquilo que se plantou. Mas como aplicar essa máxima quando a estrutura social sabota a semeadura? Estudos globais sobre longevidade revelam uma realidade alarmante: a expectativa de vida média de pessoas com deficiência é cerca de 13 anos menor do que a da população sem deficiência. Esse fosso abissal decorre diretamente de determinantes sociais precários e de um acesso desigual à saúde e a outros serviços e equipamentos públicos. Para a população PcD, o mercado de trabalho historicamente excludente dificulta a construção dessa “conduta honrada” no sentido material e previdenciário, além de cobrar, com mais contundência, desempenho físico nos mesmos moldes para todos, gerando com isso uma clara desigualdade.
No Brasil, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) traduzem essa disparidade também na qualidade de vida: a taxa de participação no mercado de trabalho das pessoas sem deficiência é de 66,4%, despencando para apenas 29,2% entre as PcD. Sem oportunidades plenas de trabalho nos “dias passados”, a autonomia financeira míngua. Além disso, o analfabetismo nesse grupo atinge 19,5%, quase cinco vezes mais do que o registrado entre os indivíduos sem deficiência (4,1%).
A velhice, então, passa a exigir uma defesa constante — não apenas com palavras, mas com lutas judiciais por remédios, cuidadores e o simples direito de ir e vir. A verdadeira “conduta honrada”, portanto, precisa ser deslocada do indivíduo para o coletivo. A dignidade na fase final da vida de uma pessoa idosa com deficiência depende de como nós, enquanto sociedade, garantimos que suas rugas e cabelos brancos sejam sinônimos de amparo, e não de abandono absoluto. Não se pode permitir que a automanutenção se torne um fardo pesado demais para braços já cansados.
O tempo da colheita deve ser um momento de celebração do legado, não de desespero pela sobrevivência. Que saibamos pavimentar hoje o chão inclusivo onde todos pisarão amanhã.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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2 Comments
Parabéns ao autor pelo texto e por trazer uma pauta tão urgente para a discussão!
É fundamental lembrar que mesmo os números apresentados sobre pessoas com deficiência ainda são diluídos, pois colocam no mesmo guarda-chuva desde as deficiências mais leves até as mais severas. E a grande tragédia é que muitas deficiências severas sequer conquistaram o direito ao respeito de suas necessidades fisiológicas mais básicas — como o simples ato de urinar.
Frases capacitistas que sugerem que ‘existem deficiências que se veem’ não são apenas ignorantes, elas geram mortes. Nenhuma deficiência se limita ao que os olhos alcançam. Se fosse assim, um cadeirante só precisaria de uma rampa e uma cadeira de rodas; uma pessoa cega só precisaria de piso tátil. A realidade é infinitamente mais complexa, dolorosa e oculta.
Reduzir a deficiência à aparência mata. Mata quando uma empresa nega a adequação necessária e gera um divertículo na bexiga. Mata quando a negligência de nos fazer passar horas e horas sentadas sem o suporte adequado resulta na perda de um ísquio ou em uma terceira trombose. Eu mesma vi o avanço das minhas limitações ao longo da vida e enfrentei complicações graves na saúde por essa falta de olhar integral. Já perdi três colegas cadeirantes exatamente por isso: porque suas necessidades fisiológicas e internas mais básicas foram ignoradas até o limite.
Não somos apenas uma imagem sobre rodas ou com uma bengala. Temos corpos complexos, metabolismos afetados e demandas de saúde contínuas. Enquanto a sociedade insistir em enxergar a deficiência apenas como um detalhe de ‘acessibilidade física’ e não como uma questão de sobrevivência e dignidade humana, vidas continuarão sendo perdidas para a negligência
mais uma excelente e necessária reflexão. O tempo passa, aliás, conforme nos ensina o grande compositor Moacyr Franco: ” o tempo não passa. Ele para e espera a gente passar.” E passamos ligeiro demais….