Vai que o Brasil esteja contando comigo.

João Régis Magalhães

Mesmo ainda traumatizado pela má atuação no jogo de estreia, Benévolo não acreditava que o Brasil pudesse perder ou mesmo empatar com o Haiti. Mas, a poucas horas da partida, receou que as bruxas do futebol estivessem soltas e conspirassem contra todos os prognósticos. Sentiu cólicas e percebeu que o nervosismo já o levara duas vezes ao banheiro. Sentiu calafrios e pensou estar febril, hipótese prontamente desmentida pelo termômetro.

Afinal, o improvável aparece de vez em quando no futebol. Era por isso que Benévolo jamais se sentia completamente tranquilo antes do apito final. O futebol é um dos poucos lugares onde a lógica entra em campo de uniforme, aquece diligentemente e, não raro, termina a partida derrotada. Ali, de tempos em tempos, Davi olha para Golias e decide que aquele não será um bom dia para gigantes.

Não seria a primeira vez que uma zebra dessas aprontaria em Copa do Mundo. Benévolo conhecia o prontuário das danadas. A Coreia do Norte já derrotara a Itália em 1966. A Arábia Saudita vencera a poderosa Argentina em 2022. Quando resolvem aparecer, as zebras não costumam pedir licença.

— Não tem coisa mais sofrida do que esperar jogo de Copa. Por que essa partida não começa logo? Já estou quase sem unhas… — resmungou, conferindo pela décima vez as horas em seu velho relógio de pulso.

Na hora do jogo, acomodou-se, trêmulo e desconfiado, no lado direito do sofá, devidamente vestido com a camisa da sorte. Era a mesma camisa amarela de tantas outras Copas, aquela que, por superstição, não seria lavada enquanto o Brasil permanecesse vivo na competição.

Nas mãos, o tradicional terço e o patuá de estimação. A bandeira nacional, que herdara do avô, já estava pendurada na parede. Desta vez, porém, havia uma novidade.

Contra o Haiti, resolveu inovar e amarrou duas fitinhas do Senhor do Bonfim no pulso esquerdo. Eram azul e vermelha, as cores da bandeira haitiana, retiradas de sua coleção particular de simpatias, reservada apenas para ocasiões realmente especiais.

Os primeiros minutos não ajudaram em nada.

Logo na saída de bola, um atacante haitiano avançou alguns metros pela esquerda e arriscou um chute sem grande perigo. A bola passou longe do gol, mas Benévolo levou um susto como se tivesse acertado o ângulo.

— Começou…

A palavra saiu baixa, carregada de maus presságios.

Aos cinco minutos percebeu que segurava o terço com a mão esquerda. Imediatamente passou-o para a direita. Três minutos depois voltou atrás. Aos dez concluiu que o problema talvez estivesse na posição do sofá. Mudou de lugar três vezes em menos de um minuto. Depois de alguns segundos de reflexão, retornou exatamente ao lugar de origem.

Nada parecia funcionar.

Quando o Brasil desperdiçou uma chance clara diante do goleiro haitiano, Benévolo teve certeza de que forças ocultas estavam em ação. E, pior, contra a Seleção.

— Tem coisa errada. Parece que está tudo zicado. Cheio de caiporas e belisários. Isso não é normal.

Olhou para as fitinhas do Senhor do Bonfim e uma dúvida terrível lhe atravessou a alma: e se as fitinhas azul e vermelha estivessem fortalecendo justamente o Haiti?

Empalideceu.

Por alguns segundos cogitou arrancá-las do pulso. Mas e se os deuses do futebol interpretassem aquilo como um gesto de hostilidade ao adversário?

Decidiu não arriscar.

Havia momentos na vida em que a prudência recomendava não contrariar entidades cuja existência ninguém conseguia comprovar.

Aos poucos, recuperou a confiança e já não conseguia permanecer sentado. A cada ataque do Brasil caminhava pela sala como um treinador à beira do gramado.

Até que veio o lance que ele mais esperava.

Raphinha, que minutos antes desperdiçara uma oportunidade clara, acertou um chute indefensável.

Benévolo já comemorava ensandecido quando percebeu que o gol fora anulado por impedimento. Quase milimétrico.

Ficou revoltado.

Xingou o juiz, seus auxiliares e, por extensão, cinco gerações de seus antepassados.

Depois voltou a desconfiar de que havia alguma coisa errada.

— Xô, caiporas! Xô, belisários! Assim não dá!

O jogo seguia e o Brasil dominava amplamente. Mesmo assim, Benévolo permanecia desconfiado. Já conhecia aquele roteiro. O mocinho controlava a história inteira e, nos cinco minutos finais, surgia um roteirista mal-intencionado para estragar tudo.

Até que começou a reparar no camisa 9 da Seleção.

Matheus Cunha corria, marcava, abria espaços, chutava, aparecia em todos os lugares.

Jogava tanto que Benévolo formulou uma hipótese ousada.

— Acho que esse rapaz foi benzido.

Aos 23 minutos, aproveitou o rebote do goleiro em jogada iniciada por Vini Júnior e abriu o placar.

— Gooooooooool!

Benévolo pulou como um menino e expulsou dos pulmões, num único berro, toda a angústia acumulada desde o café da manhã.

Ainda no primeiro tempo voltaria a gritar outras duas vezes. Aos 36 minutos, Matheus Cunha marcou novamente. Aos 48, Vini Júnior também deixou o dele.

O segundo gol já foi comemorado com menos sofrimento e mais convicção. No terceiro, Benévolo distribuía diagnósticos táticos para ninguém em particular, como se integrasse a comissão técnica da Seleção.

Três a zero.

Aliviado, olhou para o terço, depois para o patuá e, por fim, para as fitinhas do Senhor do Bonfim.

Nenhum daqueles objetos seria aposentado.

— Estão funcionando — concluiu.

No intervalo fez rapidamente as contas.

— Se continuar assim, vai ser seis a zero fácil.

As equipes voltaram para a etapa final. O jogo perdeu intensidade. Parecia que o Haiti já não queria correr o risco de sofrer uma goleada maior, enquanto o Brasil administrava o resultado pensando no compromisso seguinte. O técnico começou a mexer na equipe.

Sob forte aclamação, Endrick finalmente estreou na Copa. Mostrou faro de gol e marcou um golaço, também anulado pelo VAR.

Depois de dirigir à arbitragem comentários nada elogiosos — especialmente à mãe do juiz —, Benévolo voltou a concentrar-se no jogo. Olhou para aquele garoto de apenas dezenove anos e vaticinou:

— Com o Endrick em campo, não tem para ninguém. Vai, Brasil!

E sonhou, por alguns instantes, com o hexacampeonato.

Ao apito final, deixou para trás os temores das horas anteriores. Guardou cuidadosamente o terço, acomodou o patuá sobre a mesa da sala e, pela primeira vez naquela Copa, cogitou que talvez estivesse exagerando um pouco nas preocupações.

Talvez.

Porque o futebol não costuma perdoar excessos de confiança.

Enquanto os comentaristas analisavam a partida, sua atenção já estava voltada para o compromisso seguinte.

A Escócia.

Não fazia muito sentido, afinal os escoceses haviam perdido para Marrocos. Ainda assim, Benévolo decretou:

— Time europeu é sempre complicado.

Aprendera que uma derrota ocasional nunca invalida uma boa superstição. Em Copa do Mundo, a lógica costuma frequentar a mesma divisão dos fatos irrelevantes.

Minutos depois já examinava a tabela da competição com a dedicação de um investigador da Polícia Federal diante de um caso complexo. Cruzamentos, datas, adversários prováveis e saldo de gols eram cuidadosamente analisados. Copa do Mundo não é lugar para amadores.

O jogo seria na quarta-feira, dia de São João, data de festas em todo o Brasil, especialmente no Nordeste.

Tomou então uma decisão importante.

Guardaria a tradicional fitinha vermelha do Senhor do Bonfim e passaria a usar uma branca. Azul e branco eram as cores da bandeira escocesa. E Benévolo tinha um princípio inegociável: Superstição que funciona não deve ser contrariada.

Também colocaria ao lado da televisão uma pequena imagem de São João. Proteção nunca é demais.

Pensou longamente onde amarrar as fitinhas. Descartou o próprio pulso. Talvez o certo fosse mudar. Não sabia por quê, mas decidiu que era preciso variar.

Depois de uma extensa pesquisa — que incluiu vídeos, fóruns obscuros da internet e opiniões de gente que certamente jamais pisaria na Escócia — chegou à conclusão de que precisava de uma gaita de foles.

Comprou uma.

A gaita chegou na véspera da partida.

Na manhã do jogo, Benévolo amarrou duas fitinhas do Senhor do Bonfim, uma azul e outra branca, em um dos tubos do instrumento e deu três nós caprichados. Três nós para três gols. Não convinha exagerar e provocar a ira dos deuses do futebol.

Cogitou abrir um whisky escocês que guardava havia anos para uma ocasião especial. Desistiu.

Desde um tenso jogo do Flamengo não bebia uma gota de álcool. Fizera uma promessa e, como acontece com frequência nas relações entre homens e divindades futebolísticas, o pedido fora atendido, mas a conta continuava chegando.

Arrependera-se algumas vezes. Sempre apreciara um bom gole entre amigos. Mas promessas não podem ser quebradas.

Dão azar.

Às sete da noite, no dia de São João,  Benévolo repetia o ritual de sempre. Sentado no lado direito do sofá, vestia o manto amarelo, segurava o terço e o patuá, enquanto a bandeira nacional permanecia estendida na parede. A novidade era a gaita de foles. Pelo tamanho avantajado, foi acomodada no chão, encostada na parede, estrategicamente à direita da televisão e levemente inclinada na direção do sofá. Planejava inverter sua posição no intervalo. Nunca se sabe.

O Brasil começou bem a partida, o que deveria acalmar um pouco o nervosismo de Benévolo.

Não adiantou. Continuava desconfiado. Tinha a impressão de que deixar a bola com o Brasil fazia parte de algum plano secreto dos escoceses para desferir um golpe mortal quando menos se esperasse.

Sofria. Suava frio.

No cabalístico sétimo minuto, Vini Júnior abriu o placar, aproveitando uma falha da defesa escocesa.

Benévolo soltou um grito de gol tão estridente que provavelmente foi ouvido em todos os andares do prédio.

Pouco depois, Vini marcou novamente. O VAR anulou o gol.

Benévolo descarregou sua indignação contra árbitro, bandeirinhas, cabine do vídeo e qualquer cidadão que, por infeliz coincidência, portasse um apito.

Nada adiantou.

O placar permaneceu em um a zero.

Já nos acréscimos do primeiro tempo, sempre ele, Vini Júnior voltou a balançar as redes.

Desta vez valeu.

Depois de comemorar aos pulos e gritar até ficar rouco, Benévolo parou diante da imagem de São João. Ajoelhou-se, fez o sinal da cruz e uma reverência. Em seguida aproximou-se da gaita de foles. Pousou a mão sobre as fitinhas e beijou-as com devoção. Durante alguns segundos teve a impressão de que um dos foles se movera discretamente. Ficou imóvel. Nenhuma janela estava aberta. Pensou em verificar mais de perto, mas desistiu. Havia mistérios que não deviam ser perturbados durante uma Copa do Mundo. Limitou-se a fazer o sinal da cruz e voltou para o sofá.

Exausto, aproveitou o intervalo para se esticar. Bebeu dois goles d’água, respirou fundo e fechou os olhos por alguns instantes.

Era feliz.

O segundo tempo começou praticamente como terminara o primeiro. O Brasil continuava dominando.

Enquanto acompanhava a partida, Benévolo também consultava pelo celular o jogo entre Marrocos e Haiti. O empate parcial lhe parecia uma excelente notícia. Se permanecesse assim, o Brasil encaminharia a liderança do grupo.

— Eu sabia… — murmurou, satisfeito.

Poucos minutos depois, Matheus Cunha, que parecia jogar em todas as posições ao mesmo tempo, recebeu um passe açucarado de Bruno Guimarães e fez o terceiro gol brasileiro.

Brasil três a zero.

Benévolo levantou-se imediatamente. Beijou o escudo da camisa. Rezou um Pai-Nosso segurando o terço e a pequena imagem de São João. Depois acendeu algumas velas brancas.

Marrocos virou a partida, mas já era tarde. O Brasil terminava a fase em primeiro lugar.

Benévolo agradeceu discretamente aos céus.

Estava profundamente agradecido. E, sobretudo, convencido de que sua fé também tinha participação naquela campanha.

A fase de grupos chegara ao fim. Agora começava o mata-mata.

Cinco vitórias separavam o Brasil do hexacampeonato.

O próximo adversário ainda não estava definido. Dependia de resultados. Podia ser Japão, Holanda ou Suécia.

Ele não tinha preferências. Qualquer um dos três seria um jogo difícil. Mas eram adversários perfeitamente batíveis. Porque quem almeja o hexa não escolhe adversário, concluiu Benévolo.

Sorriu satisfeito.

Estava convencido de que a Seleção tinha jogadores extraordinários. Vini Júnior parecia iluminado. Matheus Cunha atravessava uma fase esplêndida. Endrick prometia decidir jogos grandes. Quem sabe até o menino Ney renascesse como a Fênix na hora certa? Copa do Mundo tem dessas coisas.

Naquela noite, Benévolo encontrou mais dois sinais de que o universo finalmente começava a colaborar. Primeiro, voltara a chover em Brasília. Assim como na noite da estreia. Em pleno junho brasiliense, aquilo já dizia alguma coisa. O segundo era ainda mais eloquente. Duas vitórias por três a zero. Três mais três, seis. Seis de hexa. Coincidência? Não para quem prestava atenção aos recados do universo.

Sorriu outra vez.

Conferiu se a gaita permanecia exatamente onde deveria estar.

Afinal, sinais não costumam aparecer à toa.

Vai saber…

Talvez o Brasil estivesse mesmo contando com ele.

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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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