O Milagre Branco e o Mistério das Piabas Voadoras

José Teixeira

Teresina adentrou os anos dourados de 1950 com a compostura de uma dama que não tem muito luxo no armário, mas sabe engomar o vestido como ninguém. Com seus cerca de 75 mil viventes, a capital piauiense era uma terra onde a poeira dançava no mormaço e a vida corria mansamente entre o Rio Parnaíba e o Poti. A Segunda Guerra Mundial quase não deixara vestígios por ali, a não ser pela saudosa e respeitosa lembrança de dois pracinhas da terra tombados bravamente nos campos da Itália.
A cidade era francamente pobre, feita em grande parte de chão batido, casas de taipa e reboco simples cobertas de palha, mas compensava a modéstia com uma galeria de tipos inesquecíveis. Havia, por exemplo, o mestre Alcides Moreira, o afamado “Tesoura de Ouro”, que jurava sob juramento de cartório ser o único homem do Nordeste capaz de cortar um terno de linho branco sem deixar uma ruga na lapela. Havia o sapateiro Benedito Alves, artífice tão virtuoso que suas solas sob medida “desentortavam até o passo dos cambotas mais renitentes”. E, reinando na esquina do Mercado Central, erguia-se o Cabo Gabriel: quase dois metros de pura solidez marcial, apelidado carinhosamente de “Tonelada”, homem capaz de cessar uma briga de facão a trinta metros apenas pigarreando e ajustando a fivela do cinturão. E muitos outros …
Mas nenhum desses notáveis despertava tanta imaginação e controvérsia quanto Seu Rufino.
Depois de uma década de labuta incansável, Rufino era dono da maior vacaria das redondezas. Ele enchia o peito nas rodas de conversas para proclamar as virtudes de suas vacas leiteiras, segundo ele, autênticas holandesas importadas, nobres de berço e capazes de jorrar centenas de litros brancos e espumantes por semana, muito superiores ao gado comum, pé-duro, que pastava nos arredores.
Todas as manhãs, religiosamente às seis em ponto, o esquadrão de Rufino ganhava as ruas. Eram dez rapazes fortes, marchando em fila militar, cada qual carregando sobre os ombros dois pesadíssimos latões ovais de folha de flandres reluzente, cheios com 35 litros da mais pura seiva bovina. A distribuição era uma obra-prima de engenharia logística: a cidade fora dividida em quadrantes minuciosos para evitar desgaste de sola e cansaço de espinha. Em menos de duas horas, as vasilhas de barro das donas de casa já estavam cheias. Às quatro da tarde, repetia-se a jornada.
Rufino tratava o seu grupo com disciplina de coronel e generosidade de padrinho: pagava bônus semanal por litro entregue e controlava tudo na ponta de um lápis de carpinteiro atrás da orelha. A cidade admirava aquela pontualidade suíça em pleno calor piauiense.
Contudo, onde há fartura, há língua afiada.
Não demorou para correr o boato malicioso de que Rufino aumentava a produção não com feno ou pasto verde, mas com o bendito riacho de águas límpidas que serpenteava nos fundos de sua propriedade ou, pior, com a água fresca do poço cacimbão. A juventude, sempre afeita à troça, transformara a vacaria em assunto de botequim.
E foi aí que nasceu a lenda. E o apelido.
Aconteceu numa tarde abafada em que Seu Jorge, proprietário da lanchonete da Praça Pedro II, viu o estoque esgotar e comprou às pressas dez litros extras do leite de Rufino. A ajudante da cozinha despejou o líquido no caldeirão e acendeu o fogo a lenha. Quando a fervura subiu, conta a crônica popular que três piabinhas miúdas, cinzentas e muito assustadas, começaram a nadar em círculos frenéticos na superfície borbulhante, saltando desesperadas para escapar do banho fervente.

É a prova cabal e irrefutável da ciência! – berrava pelas esquinas o Pedrinho Sorveteiro, fazendo comício com a espátula na mão. Rufino não ordenha vaca, apenas; pega água no riacho e põe no latão, com piaba e tudo! Eu mesmo não compro mais esse leite misturado!
Dali em diante, o batismo foi irrevogável: Rufino Piaba.
O leiteiro espumava de raiva, acusava a concorrência de pura dor de cotovelo pelo seu progresso e jurava que logo estaria andando de “chimbica” – automóvel antigo, barulhento e esfumaçado, que na época era o ápice da ostentação motorizada.
Verdade ou exagero de comadre, o fato é que a piaba virou patrimônio da cidade. E, quanto mais falavam do apelido, mais leite Rufino vendia.
Chegou dezembro de 1950, e a vacaria quebrou todos os recordes históricos do Piauí. O leite jorrou aos cântaros. Cumprindo a promessa, Rufino pagou uma gratificação nababesca aos seus rapazes e decidiu que merecia descanso. Convidou seu auxiliar mais fiel, o compadre Abdias – o lendário “Leiteiro Número Um”, braço direito de todas as ordenhas para passar uns dias em Amarração, a praia litorânea onde o sertanejo ia se maravilhar com a imensidão do Atlântico.
No último dia da temporada, os dois compadres estavam estirados na areia clara sob o sol escaldante, a brisa do mar salgando a pele e o cansaço do ano inteiro escorrendo pelos pés descalços. Não havia pressa. O silêncio só era quebrado pelo estrondo vagaroso das ondas arrebentando na praia.
Depois de um longo período de calmaria e suspiros contemplativos, Abdias ajeitou o chapéu de palha, olhou para aquele horizonte sem fim e soltou, com a inocência límpida dos homens simples:

Que marzão danado de grande, compadre… É água que não acaba mais! Já pensou se toda essa imensidão fosse de leite puro? Hein, Rufino? A gente tava rico pro resto da vida!
Rufino nem abriu os olhos. Deu uma tragada lenta na brisa marinha, ajeitou a toalha no pescoço e respondeu, com a mais sincera irritação de homem de negócios:

Tá dizendo besteira, Abdias! Mas é muita ignorância sua, home! Isso nunca ia dar certo!
Abdias franziu a testa, curioso:

E por que não, compadre?

Porque onde é que a gente ia arranjar tanta água no mundo para render esse leite todinho?!
Abdias arregalou os olhos, abriu a boca em choque e virou-se de lado na esteira, com um sorriso de canto que ia de orelha a orelha:

Rufino, meu compadre… Pelo amor de Deus! Tô vendo que até tu acredita nessa história de piaba. Agora tu tá aqui comigo, longe de Teresina: desabafe, compadre… me conte essa verdade inteirinha!

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