Arriba, que São João Mandou!

A maior festa popular do Brasil. Você precisa estar nela

José Teixeira

Das Fogueiras Europeias ao Forró Brasileiro

Antes de qualquer triângulo repinicar no Nordeste, a Festa de São João já ardia em fogueiras pela Europa medieval. A celebração do nascimento de João Batista no dia 24 de junho, seis meses exatos antes do Natal, era praticada desde o século IV como forma de marcar o solstício de verão. Os portugueses trouxeram o costume ao Brasil colonial, e aqui a festa ganhou cor, suor e uma personalidade própria que deixou o original no chinelo. O catolicismo popular a acolheu com carinho: junho tornou-se um ciclo festivo completo, que começa com Santo Antônio no dia 13, passa por São João na noite do 23, e encerra com São Pedro no dia 29. Três santos, um só espírito.

Muito Além do Chapéu de Palha

A Festa de São João é simultaneamente religiosa, cultural, antropológica, econômica e política. sim, política, pois nenhum governante nordestino em sã consciência ignora o poder simbólico de acender uma fogueira diante das câmeras. Antropologicamente, celebra o inverno nordestino, estação das chuvas e da esperança renovada. Religiosamente, é uma das maiores expressões do catolicismo popular brasileiro. E economicamente? Isso ficará mais claro a seguir.

O Epicentro: Nordeste, com Destaque para a Paraíba e Pernambuco

Se há um Brasil que vive junho com intensidade inigualável, este Brasil se chama Nordeste. Caruaru, em Pernambuco, e Campina Grande, na Paraíba, disputam com seriedade e bom humor o título de “Maior São João do Mundo.” Ambas têm argumentos de peso e eméritos de sobra! Caruaru, patrimônio cultural do Brasil, tem a tradição; Campina Grande, o Parque do Povo e uma organização que impressiona. Fortaleza, Feira de Santana, Mossoró e inúmeras cidades do interior completam o mapa das festas de referência.

O  Brasil é grande, complexo e distinto. Mas  chega unido a todos os cantos, respeitando nossas variações culturais. No Rio Grande do Sul, o São João divide espaço com a influência das culturas alemã e italiana, e a festa é mais discreta, integrada às tradições gaúchas. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, os bairros nordestinos transplantaram a festa para o Sudeste com saudade e determinação. No Maranhão, junho é a antessala do Bumba Meu Boi que, mesmo sendo outra história, integra a mesma família.

Bumba Meu Boi, Quadrilhas e Outras Criaturas Juninas

O Bumba Meu Boi (Boi Bumba no Amazonas) é um espetáculo à parte: um auto popular que encena a morte e a ressurreição de um boi, com música, dança e figurinos elaboradíssimos. É manifestação cultural reconhecida como patrimônio imaterial brasileiro e tem no Maranhão e no Amazonas seus centros mais vigorosos. Por que lá e não aqui? Porque cada terra cria seus ritos a partir do que tem: o boi, que era peça central da economia sertaneja e amazônica, tornou-se personagem central da narrativa popular.

Já as quadrilhas, que no Sul o leitor talvez conheça apenas como dança de salão europeia, assumiram no Brasil uma identidade totalmente própria. Nascidas das contradanças francesas do século XIX, evoluíram para um gênero competitivo e sofisticado, com temas, figurinos planejados e coreografias ensaiadas por meses. Há as estilizadas, de visual quase teatral, e as tradicionais, com o clássico matuto e matuta. Em ambas, o nível de entrega dos brincantes desafia qualquer preconceito.

O Forró: Do Acordeão de Luiz Gonzaga ao Triângulo Sem Fim

Impossível falar de festa junina sem falar de forró. E falar de forró sem mencionar Luiz Gonzaga seria como falar de samba sem citar o Rio. Isso seria um sacrilégio cultural de primeira grandeza. O Rei do Baião, pernambucano de Exu, inventou no rádio dos anos 1940 a trilha sonora do sertão: sanfona, zabumba e triângulo. “Assa o bolo, xote das meninas, olha pro céu meu amor”… Quem não reconhece esses versos, mesmo sem nunca ter pisado num arraial, é brasileiro por acidente.

O forró de raiz convive hoje com o forró universitário e ritmos mais recentes como a pisadinha. Puristas reclamam; o povo dança. A música junina permanece viva porque se reinventa sem perder o compasso.

Os Números que Impressionam

A Festa de São João não é apenas folclore: é economia também. Estima-se que os festejos juninos movimentem mais de R$ 3 bilhões por ano no Brasil, considerando turismo, gastronomia, artesanato, hotelaria e shows. Só em Campina Grande, a festa recebe cerca de 2 milhões de visitantes ao longo de todo o mês de junho. Em Caruaru, os números são semelhantes. Centenas de milhares de brincantes integram quadrilhas, grupos de forró e cia. em todo o país, enquanto dezenas de milhões de espectadores assistem, pessoalmente ou pela televisão, à 0mior manifestação cultural brasileira. 

À Mesa do Arraial

O milho é o rei: canjica, curau, pamonha, milho cozido e assado. A mandioca vem logo atrás, base do mungunzá, das tapiocas e dos bolos. A carne de bode, o sarapatel e o baião de dois (arroz com feijão verde, queijo e carne de sol) compõem o cardápio salgado. Para adoçar, doces de leite, pé de moleque e cocada. Para beber, o quentão (cachaça com gengibre, cravo e canela) aquece as madrugadas do sertão. O suco de caju fecha o cardápio com elegância tropical.

Venha Para o Arraial.  É Nossa Festa

O Brasil tem poucos consensos. Mas a Festa de São João é um deles. Ela reúne o devoto e o agnóstico, o servidor público e o empresário, o nordestino da gema e o paulistano que nunca viu um pé de milho de perto. É uma celebração que cresce a cada ano; não por decreto, não por campanha publicitária, mas pela força espontânea de uma tradição que o povo decidiu não deixar morrer.

Se você mora perto de um arraial, vá. Se tem filhos ou netos, leve-os à melhor aula de cultura brasileira ao som de uma sanfona, com cheiro de milho assado no ar. Se mora longe, planeje uma viagem ao Nordeste em junho: é a versão brasileira de um Carnaval diferente, mais afetuoso, mais familiar, mais nosso.

Junho passa rápido. São João não espera. E a fogueira, como dizia o velho Gonzaga, está para ser acesa.

Viva São João!

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