Brincar ajuda crianças neurodivergentes a desenvolver habilidades e participar de atividades coletivas

Acompanhamento profissional de Fisioterapia e Psicomotricidade auxilia crianças atípicas a superar dificuldades motoras, favorecendo a inclusão e o desenvolvimento das relações sociais

O ato de brincar costuma estar associado a momentos de diversão, lazer e entretenimento durante a infância. No entanto, vai muito além de uma atividade recreativa. É uma forma de explorar o mundo, desenvolver habilidades cognitivas, aprender a resolver problemas, fortalecer a criatividade e construir as primeiras relações sociais. Contudo, essa é uma trajetória diferente para crianças com desenvolvimento atípico, como aquelas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), síndromes genéticas ou outros atrasos do neurodesenvolvimento, para as quais o acesso às brincadeiras e às experiências sociais pode apresentar desafios adicionais que muitas vezes passam despercebidos.

Brincar é uma das principais formas de aprendizagem durante os primeiros anos de vida e uma simples corrida ou atividade em grupo representa uma oportunidade para que a criança desenvolva competências fundamentais para sua formação. São nestes momentos que elas aprendem a esperar sua vez, a compreender regras, a lidar com as frustrações, a tomar decisões e a interpretar sinais do ambiente ao seu redor. É um processo natural e espontâneo em que absorvem esses aprendizados por meio da observação, da experimentação e da interação com outras pessoas.

A fisioterapeuta e psicomotricista Rafaela Campos, diretora multiprofissional da Affect Centro Clínico e Educacional, clínica especializada no acompanhamento de crianças com TEA e outras neurodivergências de Goiânia, explica que muitas crianças atípicas enfrentam dificuldades de socialização que são atribuídas aos aspectos relacionados à comunicação ou ao comportamento, mas existe outro fator importante que nem sempre observado, que é o desenvolvimento motor. “Em muitos casos, a dificuldade para participar de brincadeiras coletivas não está relacionada à falta de interesse em interagir, mas sim às limitações físicas, sensoriais ou de planejamento motor que dificultam a participação ativa nas atividades do grupo”, afirma.


Rafaela destaca que brincadeiras aparentemente simples, como correr, jogar bola, pular corda ou participar de uma roda de amigos, exigem que o cérebro processe uma enorme quantidade de informações em poucos segundos. Além disso, segundo a fisioterapeuta, é necessário calcular distâncias, ajustar movimentos, manter o equilíbrio, controlar a força utilizada e compreender a posição do próprio corpo em relação ao espaço e às outras pessoas.

“Quando essas habilidades ainda não estão plenamente desenvolvidas, a participação social pode se tornar mais difícil. Nestes casos, a criança até demonstra vontade de brincar com os colegas, mas tem dificuldade para realizar essa interação de maneira adequada. Ela esbarra sem querer em outra criança, se aproxima de forma brusca ou mesmo não consegue  acompanhar o ritmo da brincadeira. Ela então pode se sentir excluída e prefere se afastar para evitar novas frustrações, criando um ciclo que compromete tanto a autoestima quanto o desenvolvimento social”, alerta. 

Segundo a fisioterapeuta e psicomotricista Juliana Vieira, que integra a equipe da Affect, o corpo também desempenha um papel fundamental na construção das relações humanas e a socialização não depende apenas da linguagem e da comunicação verbal. “Socializar é compreender o próprio corpo, interpretar o ambiente e interagir adequadamente com outras pessoas, por isso as dificuldades motoras podem prejudicar a participação da criança nas atividades coletivas. E antes de concluir que uma criança apresenta dificuldades para se relacionar, é preciso investigar se ela possui as habilidades físicas necessárias para participar das experiências que favorecem a convivência com os demais”, orienta.

Juliana lembra que crianças que utilizam cadeira de rodas, andadores, órteses, por exemplo, apresentam dificuldades motoras para participar de brincadeiras e atividades coletivas quando não recebem os recursos e adaptações adequados. “O mais importante não é a maneira como elas executam os movimentos, mas a possibilidade de fazer parte das experiências que promovem aprendizado, desenvolvimento e pertencimento. É justamente nesse cenário que áreas como a Fisioterapia e a Psicomotricidade atuam, utilizando atividades lúdicas, jogos e desafios adaptados para desenvolver habilidades essenciais ao crescimento infantil, como equilíbrio, coordenação motora, planejamento dos movimentos, organização espacial e percepção corporal”, acrescenta.

Para a fisioterapeuta Maevy Oliveira, também da equipe da equipe multiprofissional da Affect, o acompanhamento profissional vai muito além da reabilitação física e busca ampliar a autonomia, a confiança e a capacidade de interação da criança com o mundo ao seu redor. Ela lembra que cada conquista motora reflete diretamente no dia a dia, facilitando a participação em brincadeiras, atividades coletivas e relações sociais. “A inclusão depende não apenas da aceitação, mas também da criação de oportunidades para que todas as crianças participem de forma ativa. Mais do que diversão, brincar é um direito fundamental que promove aprendizado, pertencimento e desenvolvimento, respeitando as necessidades e potencialidades de cada indivíduo”, arremata.

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