Construindo um modo de vida

A infância vivida numa cidade pequena do interior mineiro, assim como na maioria das cidades e vilas do país, especialmente em meados do século passado, foi fundamental para as vivências que hoje experimentamos. Também se prestam para refletirmos sobre o legado que deixamos àqueles que nos sucederam e que formam, hoje, a geração que vai assumir o destino de nossa espécie.

O espetacular desenvolvimento ocorrido a partir da metade do século XX, capitaneado pelo uso de máquinas e equipamentos que reduziram drasticamente a necessidade da força física. As novas tecnologias permitiram minimizar a carga horária de trabalho, inclusive para acolher parte dos muitos trabalhadores cuja atividade foi extinta ou minorada. Atualmente, está posta uma acirrada discussão, tanto nos meios políticos quanto entre empregados e patrões, sobre o período laboral. A proposta é a ampliação da folga para descanso, de um para dois dias na semana, ou seja, a substituição da escala de seis dias trabalhados por um de descanso, para cinco dias trabalhados por dois de descanso. Entre as razões apresentadas pelos apoiadores, há a sensível melhoria na qualidade de vida do empregado. Entre os detratores, o risco de piora significativa na crise econômica. Apesar disso, em ambos os lados, muitos convergem para a percepção de que a corrupção, a malversação do dinheiro público, os desperdícios e desvios no erário, cuja arrecadação chega à casa dos trilhões, são a real causa do estado instável em que vivemos. O que se vê é uma máquina pública imensa, inchada, contraproducente e tendente ao escárnio com o esforço do contribuinte, que tem seu salário taxado em quase 50% sem contrapartida razoável em serviços públicos de qualidade ou quantidade.

A geração que mudou os conceitos de bem-estar talvez tenha se equivocado na transmissão de valores éticos e morais aos seus descendentes. As conquistas científicas, como a redução da mortalidade e ampliação da longevidade, desenvolvimento de tratamentos preventivos e curativos, mais a facilitação do acesso ao conhecimento, quiçá tenham tornado um grande contingente da nova geração em pessoas avessas ao esforço, ao trabalho, ao empenho por conquistas pessoais ou sociais. Dessa forma, uns poucos, como diriam os cariocas: “expertox”, assumem o controle e criam narrativas palatáveis aos menos esclarecidos e, assim, os mantêm subjugados, não pela força dos tiranos, mas pela incapacidade de os tiranizados reconhecerem sua própria condição.

A clareza que alguns têm acerca desse momento desanimador já foi descrito filosoficamente em “A República” de Platão, mais de 350 anos antes de Cristo, no livro 7: “a alegoria da caverna”. Mais recentemente, George Orwell, numa fábula moderna genial, “A Revolução dos Bichos” (1945), demonstra todo o processo de violenta ruptura com o modelo social em que há, naturalmente, algumas falhas, para instalar uma ditadura em que apenas as “lideranças” fruem do esforço da maioria, enquanto mentem, distorcem e massacram aqueles que, porventura, ousem questionar.

Aquela geração que teve muitos filhos, lutou, desenvolveu, estudou e amou tanto que protegeu sua prole até de desafios mínimos, talvez, apenas talvez, tenha falhado.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.

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