Onde foi que eu errei?

João Régis Magalhães

A noite foi longa e sofrida. 

Benévolo passou mais tempo insone do que cochilando. Quando conseguia cerrar os olhos, vinha sempre o mesmo pesadelo: um viking com a cara do Erling Haaland, usando aquele corte de cabelo improvável, corria em sua direção empunhando um machado capaz de partir um tronco ao meio.

Acordava assustado e repetia para si mesmo:

 — Foi só mais um pesadelo nórdico.

Desistiu, enfim, de tentar dormir. 

A cabeça parecia um canteiro de obras no início da manhã. A sonolência ainda pesava nas pálpebras. A dor de cabeça, porém, parecia ter batido o ponto para mais um turno. A noite maldormida cobrava seu preço.

Levantou-se sem ânimo, mais por força do hábito do que por vontade. Abriu a janela do quarto. O sol nascera pálido, como se compartilhasse o vexame.

— Existe coisa mais humilhante do que ser eliminado por uma trupe de remadores de caiaque?

Continuou se lamuriando:

— Uma tristeza. Faltou feijão e carne seca no bucho dessa meninada, que parece ter sido criada a pão de ló, leite morno e videogame. Oh, miséria! Onde já se viu um escrete canarinho terminar um jogo com pouco mais de trinta por cento de posse de bola! 

Balançou a cabeça, inconformado.

— Êta, timinho sem-vergonha. Falta de tudo. Tática, talento e pontaria. 

Depois concluiu com uma certa descrença:

— O pior é que até poderia ter vencido. Mesmo jogando esse futebolzinho mequetrefe. Se o pênalti não tivesse sido bisonhamente perdido e o Endrick não tivesse chutado para fora o gol mais feito da Copa, teríamos avançado. E aí, sim, seria ainda pior. 

— Apenas prolongaria a agonia… Ou talvez não, nunca se sabe.

Um pouco confuso, Benévolo já não sabia se a eliminação fora um desastre ou um livramento.

Resolveu então descobrir o que, afinal, acontecera naquele domingo em Nova Jersey. 

Não era fácil. 

As pontadas na cabeça e o corpo pesado conspiravam contra qualquer tentativa de raciocínio.

Tomou um banho quente e demorado. Depois, sentado à mesa, bebericando uma xícara de café forte, sem açúcar, começou a se sentir melhor.  Pelo menos, agora conseguia pensar sem que a dor e o cansaço lhe roubassem a concentração.

Olhou para o nada.

—  Onde foi que eu errei? 

Fez um esforço hercúleo para reconstruir, passo a passo, todos os preparativos que fizera antes da partida. 

Vestiu a camisa amarela que não conhecia sabão desde que começou a Copa. A bandeira nacional que herdara do seu avô estava no lugar certo. O terço e o patuá também.

Lembrou-se do capacete viking.

Amarrara três fitinhas do Senhor do Bonfim nas cores da bandeira da Noruega em cada um dos chifres. 

Parou.

Opa…

Será que… foi isso que derrotara o Brasil? Três fitinhas para cada chifre.

Ele fez as contas.

Seis.

Arregalou os olhos.

— Meu Deus… 

— Seis. O número da besta!

— Será que eu dobrei o azar e ele se voltou contra o Brasil?

Ficou alguns segundos em silêncio.

— Pouco provável…mas.

Mesmo sem muita convicção, resolveu não mexer nas fitinhas. Vai que o problema fosse justamente desfazer o nó. 

Respirou fundo. Precisava continuar a investigação.

Lembrou-se claramente que assistira o primeiro tempo sentado no lado esquerdo do sofá. Disso tinha certeza. 

Coçou a cabeça. 

Alguma coisa escapava.

Mas o quê?

Será que o problema era outro?

Olhou novamente para o capacete.

— Será que foi porque o dia 05 de julho não era consagrado a nenhum santo conhecido? 

A hipótese lhe pareceu consistente.

— Sem santo de serviço, quem iria interceder?

Continuou olhando para o capacete, como se esperasse que ele próprio confessasse o erro.

Nada.

A resposta parecia estar bem diante de seus olhos. Só não conseguia enxergá-la.  

Resolveu restringir o campo da investigação.

Lembrou-se de que, naquele domingo, não choveu — ao contrário do que acontecera em dois dos jogos anteriores.

Seria um mau agouro? Um aviso do além? 

Ou apenas porque, afinal, julho costuma ser seco em Brasília?

Fechou os olhos e reconstruiu mentalmente cada gesto, cada decisão, cada detalhe antes e durante o jogo. 

Tudo parecia exatamente como deveria. 

Foi então que um pensamento inconveniente atravessou sua cabeça.

E se, pela primeira vez, suas simpatias simplesmente não tivessem funcionado?

A ideia mal surgiu e já foi rechaçada.

— Bobagem.

Retrucou a si mesmo em voz alta.

Tinha uma vida inteira de serviços prestados às boas causas. Não era homem de falhar justamente em uma Copa do Mundo.

Acreditava piamente que o gol do Vini Júnior contra o Marrocos e o gol salvador nos acréscimos diante do Japão tinham recebido, pelo menos em parte, uma discreta ajuda dos santos juninos, das fitinhas do Senhor do Bonfim e de algumas mandingas cuidadosamente executadas.

Quanto a isso, não admitia discussão. 

Talvez a questão fosse outra. Talvez o problema não estivesse nele, mas espalhado pelos quatro cantos do país, onde milhões de brasileiros ignoravam as liturgias que uma Copa do Mundo exige.

Gente lavando a camisa da Seleção no meio da Copa. Assistindo aos jogos com a camisa nas cores do adversário. Mudando de lugar no sofá durante um ataque promissor. Desligando a TV antes do apito final. Fazendo churrasco de salmão justamente contra a Noruega. 

Assim ficava difícil. Não havia simpatia que resistisse. 

A conclusão não se apoiava em prova alguma. Mas lhe pareceu absolutamente razoável.

Benévolo já não estava tão triste. Continuava frustrado, é verdade. Mas sobreviveria. 

Ainda no domingo fatídico da eliminação tomara uma decisão.  Para ele, a Copa terminara ali.

Era hora de voltar a atenção para outros assuntos.  

Foi até o velho baú onde guardava suas relíquias futebolísticas. 

Dobrou cuidadosamente a camisa amarela, agora finalmente lavada, envolveu-a na bandeira nacional e guardou ambas dentro de um saco plástico vedado.

Em seguida retirou, com o cuidado de quem manuseia uma peça sagrada, a camisa rubro-negra que descansava desde o início da Copa. 

Passou a mão sobre o tecido. Depois beijou, demoradamente, a estrela de campeão mundial bordada no peito.

Sorriu pela primeira vez desde domingo.

Sentou-se à mesa. Pegou uma folha de papel. No alto escreveu, em letras maiúsculas:

MANUAL DE SIMPATIAS PARA O SEGUNDO SEMESTRE.

Respirou fundo.

Depois daquela Copa, aprendera que improvisar simpatias era coisa de amador.

Começou a listar:

— Confirmar previamente se haverá santo de plantão.

— Nunca utilizar seis fitinhas.

— Em caso de dúvida, consultar São Pedro.

— Evitar, sob qualquer hipótese, objetos de procedência escandinava.

Terminou a lista, releu cada item com atenção e só então voltou os olhos para o capacete viking perdido em um canto da sala.

Pensou durante alguns segundos.

Levantou-se.

Guardou-o dentro de um velho armário. 

Antes de fechar a porta, porém, o virou de frente para o fundo do armário e ainda o cobriu com um pano preto.  Nunca é prudente deixar o inimigo livre.  

Fechou o armário.

Agora, sim.

O Flamengo estava devidamente protegido.

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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br.

João Régis Magalhães

Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.

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