Eventos climáticos extremos afetaram mais de 336 mil pessoas no Brasil em 2025

Relatório do Cemaden aponta chuvas intensas, secas prolongadas, ondas de calor e ciclones; Região Norte concentrou mais de 202 mil pessoas atingidas

Mais de 336 mil pessoas foram diretamente afetadas por desastres climáticos no Brasil em 2025, ano marcado por chuvas intensas, inundações, secas severas, ondas de calor, ciclones e tornados. Os danos materiais registrados chegaram a aproximadamente R$2,9 bilhões.

Os dados fazem parte do relatório “Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025”, elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), unidade vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O documento, divulgado em fevereiro de 2026, aponta que 2025 esteve entre os anos mais quentes já registrados no planeta. No Brasil, as temperaturas permaneceram acima da média histórica em grande parte do território, apesar da atuação de uma La Niña de baixa intensidade, fenômeno que normalmente contribui para a redução das temperaturas.

Foto Pedro Alcântara/ Projeto Saúde Alegria

O cenário foi marcado por contrastes. Enquanto as regiões Sul e Sudeste enfrentaram chuvas intensas, inundações, tornados e ciclones, áreas da Amazônia, do Centro-Oeste e do Sudeste sofreram com secas prolongadas e redução dos níveis dos rios e reservatórios.

Região Norte concentrou maior número de atingidos

A Região Norte registrou mais de 202 mil pessoas diretamente afetadas por eventos hidrometeorológicos em 2025, a maior concentração de danos humanos entre as regiões brasileiras. O ano começou com níveis baixos nos rios Negro, Solimões e Madeira, ainda como reflexo da seca extrema provocada pelo El Niño de 2023 e 2024. Ao longo dos meses seguintes, porém, episódios de chuvas intensas e inundações passaram a provocar prejuízos em diferentes estados.

No Acre, o rio Acre atingiu 14,34 metros em março, ultrapassando a cota de transbordamento e provocando inundações no oeste do estado. O nível voltou a subir de forma acentuada em dezembro.

No Amazonas, Manacapuru registrou 5.202 pessoas feridas ou afetadas por inundações em junho. No município de Beruri, 4.039 pessoas ficaram desabrigadas em julho. Apesar da recuperação de parte das bacias amazônicas ao longo do ano, o rio Negro terminou 2025 em condição de seca moderada.

Belterra registrou prejuízo de R$ 356 milhões

O município de Belterra, no oeste do Pará, apresentou os maiores prejuízos econômicos públicos do Brasil relacionados a um episódio de chuva extrema em março de 2025. Somente os gastos com assistência médica, saúde pública e atendimentos de emergência foram estimados em aproximadamente R$356 milhões.

Os valores foram reunidos a partir de informações declaradas por municípios que tiveram situação de emergência ou estado de calamidade pública reconhecidos pela União. Os impactos registrados em Belterra contribuíram para elevar os prejuízos sociais e econômicos associados aos eventos extremos na Região Norte.

Chuvas e inundações atingiram diferentes regiões

Os primeiros meses de 2025 foram marcados por fortes chuvas em vários estados. Em janeiro, eventos extremos deixaram sete mortos em Pernambuco e 12 vítimas fatais na Região Metropolitana do Vale do Aço, em Minas Gerais. Florianópolis, em Santa Catarina, acumulou mais de 350 milímetros de chuva em três dias.

Na cidade de São Paulo, foram registrados 125,4 milímetros de precipitação em 24 de janeiro, o terceiro maior volume diário desde 1961. Os alagamentos e danos na rede elétrica deixaram cerca de 180 mil pessoas sem energia.

O Rio Grande do Sul enfrentou eventos repetidos ao longo do ano. Em junho, inundações afetaram 120 municípios, enquanto novos episódios de chuvas intensas ocorreram em agosto e dezembro. Segundo o relatório, as chuvas foram responsáveis pela maior parte das mortes associadas a desastres climáticos no país, correspondendo a 86% dos óbitos registrados em eventos extremos.

Brasil enfrentou sete ondas de calor

O país registrou sete ondas de calor em 2025, concentradas principalmente no verão, no início da primavera e no final de dezembro. Em 4 de fevereiro, o município de Quaraí, no Rio Grande do Sul, atingiu 43,8 °C, a maior temperatura registrada no Brasil durante o período.

Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, chegou a 42,1 °C em janeiro, enquanto Cuiabá, em Mato Grosso, registrou 41,4 °C durante uma onda de calor em setembro.

No dia 25 de dezembro, o Rio de Janeiro atingiu 40,1 °C. Em São Paulo, os termômetros marcaram 37,2 °C no dia 28 do mesmo mês, a maior temperatura para dezembro em 64 anos de registros. No estado do Rio de Janeiro, mais de 2 mil atendimentos médicos foram realizados no final de dezembro por problemas relacionados às altas temperaturas.

O verão de 2024 e 2025 foi o sexto mais quente no Brasil desde 1961, com temperatura média 0,34 °C acima do padrão histórico.

Secas atingiram Amazônia e outras regiões

Mesmo com episódios de chuva intensa, grandes áreas do país enfrentaram déficit hídrico ao longo do ano. Em novembro, oito estados registraram condições de seca em 100% de seus territórios, entre eles São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro.

No Sistema Cantareira, principal fonte de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, o volume útil caiu para 20,2% no final do ano, pior nível desde a crise hídrica de 2014 e 2015.

Na Amazônia, a seca herdada dos anos anteriores reduziu os níveis dos rios no início de 2025. As condições foram gradualmente normalizadas em parte das bacias, mas os impactos sobre o transporte, o abastecimento e as atividades produtivas permaneceram em diversas áreas.

O relatório aponta que a transição do El Niño para condições de neutralidade e, posteriormente, para uma La Niña fraca contribuiu para a irregularidade das chuvas. O aquecimento global, entretanto, manteve as temperaturas elevadas e intensificou os extremos.

Agricultura familiar sofreu com seca e chuvas

A agricultura familiar esteve entre os setores mais afetados pelos extremos climáticos de 2025, principalmente pela dependência direta das chuvas e pela baixa capacidade de adaptação de pequenos produtores. O monitoramento do Risco de Seca na Agricultura Familiar (RiSAF) identificou 236 municípios com risco alto e 563 com risco moderado de perdas, considerando os plantios realizados no primeiro semestre.

Os maiores riscos estiveram concentrados nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste. Um município da Bahia foi classificado com risco muito alto.

A seca comprometeu a produtividade, a renda e a subsistência das famílias rurais. Já as chuvas extremas também provocaram prejuízos elevados. Em São Francisco, em Minas Gerais, as perdas na agricultura decorrentes das chuvas de dezembro foram estimadas em R$ 526 milhões.

Aquecimento global intensifica eventos extremos

O relatório atribui o cenário de 2025 a uma combinação entre mudanças climáticas, fenômenos naturais e padrões atmosféricos regionais. A La Niña apresentou baixa intensidade e não foi suficiente para neutralizar a tendência de aquecimento, com 2025 sendo apontado como o terceiro ano mais quente já registrado globalmente.

Bloqueios atmosféricos impediram a chegada de frentes frias em algumas regiões e favoreceram a permanência de massas de ar quente e seco. A Zona de Convergência Intertropical contribuiu para chuvas no Norte e no Nordeste, enquanto a Zona de Convergência do Atlântico Sul provocou precipitações intensas no Sudeste e Centro-Oeste.

Nas cidades, as ilhas de calor formadas pelo excesso de concreto, asfalto e pouca vegetação agravaram os efeitos das temperaturas elevadas. A ocupação irregular de encostas, margens de rios e áreas sujeitas a inundações também ampliou os impactos sobre a população.

O relatório estima que aproximadamente 150 milhões de brasileiros, o equivalente a 75% da população, vivem em 2.095 municípios considerados suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações.

Mais de 2,5 mil alertas foram enviados

Para elaborar o levantamento, o Cemaden reuniu informações de órgãos nacionais e internacionais, como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Organização Meteorológica Mundial e o serviço europeu Copernicus. O estudo também utilizou dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), que reúne declarações de danos humanos, materiais e econômicos apresentadas pelos municípios. Ao longo de 2025, o Cemaden enviou 2.505 alertas para 1.133 municípios monitorados e registrou 1.493 ocorrências de desastres. O documento utilizou ainda o Índice Integrado de Seca e o Índice de Seca Bivariado chuva-vazão para acompanhar os efeitos da falta de chuva na agricultura e nos recursos hídricos.

O relatório foi coordenado pela diretora do Cemaden, Regina Célia dos Santos Alvalá, e pelo coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento, José A. Marengo. Segundo o diagnóstico, a tendência de aumento das temperaturas exige investimentos em prevenção, adaptação climática, infraestrutura urbana e proteção das populações mais vulneráveis diante da possibilidade de novos eventos extremos.

Fonte: Tapajós de Fato.

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