Uso Estratégico da Vulnerabilidade.
A proteção legal e social de determinados indivíduos tem como objetivo evitar que, em razão de eventual deficiência, sejam alijados de direitos e oportunidades comuns a todos. Por esse olhar, reconhecido na Carta Magna brasileira, em seu Art. 5º, interpretado o Princípio da Isonomia, pelo STF, com fundamento na máxima filosófica atribuída ao pensador grego, Aristóteles: “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida/proporção de sua desigualdade”.
Todavia, há certos grupos que se valem da classificação de ‘vítimas’ de forma metodológica, para se poupar de críticas e evitar a responsabilização. Dessa forma, obtêm aprovação pela complacência dos outros e o acatamento de suas agendas, pois depreendem, com bom nível de acerto, que a maioria das pessoas não está disposta a questionar sua alegada condição de vítima.
Esse uso estratégico manipulado, ou vitimismo, pressupõe modelos comportamentais e retóricos para impedir o contraditório, auferir vantagens de toda ordem, morais ou políticas, e repelir investigações sobre falhas ou responsabilidades próprias. É, na psicologia, o chamado “narcisismo coletivo”, em que se empregam as narrativas de vulnerabilidade para franquear uma hegemonia discursiva.
Há instrumentos já identificados nessa dinâmica, como a Inversão de Culpa, em que se rebate uma crítica legítima silenciando o interlocutor ao redirecionar o tema em questão para o clima do diálogo ou para supostos danos emocionais consequentes. Ou Imunidade Moral, em que se busca garantir salvoconduto a quaisquer ações, ideias ou posicionamento, decorrente unicamente da sua condição. E, finalmente, o Apelo Emocional, que busca substituir a racionalidade do debate fundado em evidências ou argumentos lógicos pela solidariedade automática reativa.
Os impactos negativos são perceptíveis e geram perdas importantes para o segmento quando há, por exemplo, a polarização extrema, onde o contraditório se desvincula da simples divergência de opinião e passa à condição de agressão ou perseguição. Tais situações podem desencadear a paralisação institucional pelo receio que órgãos de controle ou mediadores tenham de cobrar deveres ou aplicar sanções por temer reações adversas do público ou sofrer a pecha de preconceituosos.
Por fim, esse o uso indevido, porém estratégico da vulnerabilidade, especialmente nesses tempos de clara inversão de valores, com complacência e, mesmo, estímulo de alguns setores do Poder Público, gera o enfraquecimento das causas legítimas. Esse estado de coisas faz surgir o ceticismo generalizado, que prejudica, sobremaneira, a quem realmente sofre abusos ou opressão real e, portanto, demanda apoio e serviços, ou seja, carece de proteção.
A título de ilustração, é possível observar todos os dias em que há expediente na Unidade Sobradinho do Departamento de Trânsito (Detran/DF), que “todas” as senhas de atendimento expedidas pelos servidores aos usuários são “preferenciais”. Não apenas parece, como se prova totalmente antiética, essa postura. E mesmo que, espalhados pelos ambientes públicos daquele órgão, estejam expostos diversos banners e cartazes informando e exaltando a “missão”, a “visão” e os “valores” que dizem professar, em verdade se desvinculam da racionalidade quando tratam indistintamente os indivíduos legalmente considerados preferenciais.
Quando optamos por normalizar o erro, abrimos mão de nossa dignidade e de direitos tão duramente conquistados.

Mário Sérgio Rodrigues Ananias é Escritor, Palestrante, Gestor Público e ativista da causa PcD. Autor do livro Sobre Viver com Pólio.
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