Julgamento
2ª Parte — Evidências
João Régis Magalhães
Creusa já estava deitada quando o celular vibrou sobre a mesinha de cabeceira. Tateou no escuro até encontrá-lo e o trouxe para perto. Abriu o aplicativo de mensagens e clicou no nome do remetente. Seus olhos brilharam ao ler a mensagem. Fechou-os por alguns segundos. Sorriu. Depois, releu.
Há muito esperava aquela resposta. Na verdade, era o que mais desejara nos últimos anos. Nenhuma notícia, pelo menos de que se lembrasse, havia sido capaz de mexer tanto com ela. Digitou apenas: “Irei”. Sorriu outra vez. Deixou o celular ao lado da cama e fechou os olhos.
Seus pensamentos não paravam. Voltavam sempre ao mesmo ponto.
Ela trocava mensagens havia meses. Nunca acreditara completamente que aquela história pudesse ter um final feliz, embora fosse o que mais desejasse. Seu ceticismo vinha justamente da longa espera para descobrir quem realmente estava do outro lado. Mas, naquela noite, a mensagem fora contundente e a balançara:
“Tenho certeza. Amanhã lhe mostrarei a prova.”
A cabeça fervilhava. O coração disparou. Por alguns instantes, faltou-lhe o ar. Sentiu um tremor percorrer o corpo. As horas de espera foram sofridas e demoraram a passar.
Ainda estava escuro quando se levantou da cama. Andou na ponta dos pés. Evitava fazer barulho. Em jejum, deixou a casa furtivamente. Não queria acordar Emília.
Pensou em deixar um bilhete explicando sua ausência. Pegou papel e caneta. Escreveu. Leu e não gostou.
“Não explica e só vai preocupá-la mais.”
Rasgou o papel. Guardou a caneta e disse, quase em um sussurro, como se estivesse em oração:
— Prometo que, quando eu voltar, vou contar tintim por tintim para ela. Emília vai entender.
Antes das seis, Creusa já estava na rodoviária. Pegou o ônibus e viajou por menos de duas horas.
Agora aguardava no local e no horário que haviam combinado. O coração parecia querer sair pela boca. Suava frio, esfregava as mãos e consultava o celular a todo instante. Nenhuma mensagem.
Conferiu o relógio. Olhou para a rua. Um senhor passeava com um cachorro. Um ônibus passou. Três ciclistas, de óculos e capacetes coloridos, cruzaram a rua.
Voltou a olhar o celular e resmungou:
— Por que não me responde? Será que desistiu? Será que…?
Pegou o celular novamente. Nada.
Estranhou a demora. Conferiu o endereço pela terceira vez. Não tinha dúvidas. Era ali mesmo.
Passaram-se mais alguns minutos. Estava distraída, os pensamentos longe, quando sua atenção se voltou para o outro lado da rua.
Um homem de meia-idade acenava para ela.
Creusa sorriu e respondeu ao gesto.
Só podia ser ele.
As pernas tremeram. O coração disparou. Por um instante, teve medo de cair.
***
Algumas horas antes, quando o dia já começava a amanhecer, Fábio abriu a pasta mais uma vez. Conferiu os documentos, embora já os tivesse conferido umas dez vezes naquela semana. A fotografia da casa de campo voltou às suas mãos. Olhou-a atentamente por alguns segundos e pensou: “Não posso perder esta oportunidade”. Guardou-a, fechou a pasta e a colocou no banco do carona.
Entrou no carro, ligou o motor, engatou a marcha a ré e deixou sua casa. Naquela manhã, saíra antes do horário costumeiro e fizera um esforço danado para não acordar ninguém. Era ainda muito cedo, mas ele estava ansioso. Já fazia algum tempo que planejava aquilo e, finalmente, poderia realizar um sonho que acalentava havia muito. Acho que nós merecemos isso, pensou. Quanto mais imaginava o que estava por vir, mais sorria.
Àquela hora, as ruas ainda estavam quase vazias e Fábio parecia estar sozinho no trânsito. O vento frio da manhã entrava pela janela e batia em seu rosto. Aquilo o animava. Cantarolava baixinho uma música que conhecia bem:
— Eu quero uma casa no campo. Onde eu possa ficar do tamanho da paz…
Sorriu. Estava feliz.
Foi tudo muito rápido. No cruzamento, um carro surgiu de repente e veio em sua direção. Fábio pisou no freio, mas não houve tempo. Os dois veículos se chocaram violentamente. O barulho do impacto rompeu o silêncio da manhã e chamou a atenção dos moradores, que abriram as janelas e, pouco depois, começaram a sair de suas casas. Alguns correram em direção ao local do acidente.
Poucos minutos depois, um carro parou a alguns metros do abalroamento. Um homem desceu e se aproximou. Os dois homens respiravam. Um deles estava consciente e gemia de dor.
— Calma. O socorro já vai chegar — disse o homem, antes de pegar o celular e ligar para o SAMU.
Em seguida, voltou até o carro de Fábio para verificar se ele havia recuperado os sentidos.
Abriu a porta e tentou falar com ele.
— O senhor está me ouvindo?
Nenhuma resposta.
Fábio continuava respirando. O homem tocou seu pescoço e verificou o pulso. Contou mentalmente até trinta. Ainda estava ali. Sentiu-se um pouco mais tranquilo.
Olhou para dentro do carro. Uma pasta estava sobre o banco do carona, ao lado do celular. Pegou-a, abriu e viu alguns papéis e uma carteira. Permaneceu por alguns segundos olhando para o conteúdo. Depois fechou a pasta e a deixou exatamente no mesmo lugar.
O socorro chegou minutos depois. A essa altura, o local começava a se encher de curiosos. Carros passavam devagar e alguns motoristas paravam para observar o acidente. Um dos paramédicos se aproximou de Fábio e tentou estabelecer contato.
— Senhor, qual é o seu nome?
Silêncio.
— Senhor, está me ouvindo?
Silêncio.
O socorrista mediu a pressão e verificou os batimentos cardíacos. Estavam baixos. Fábio respirava com dificuldade. Foi retirado do veículo, colocado na maca e levado à ambulância. Recebeu oxigênio ainda no caminho ao pronto-socorro.
Foi internado, fez alguns exames e passou por uma intervenção cirúrgica de emergência. Depois, foi levado para a UTI.
Não encontraram nenhum documento com ele. Fábio deu entrada no hospital como desconhecido.
A pasta e o celular ficaram no carro.
***
Creusa olhou aquele homem que vinha ao seu encontro. Ele tinha um sorriso no rosto e caminhava a passos firmes. Aquele momento lhe pareceu uma eternidade. Seus pensamentos voltaram à infância. Procurou, naquele rosto que ainda desconhecia, alguma coisa que lhe fosse familiar. Não tinha certeza, mas havia nele qualquer coisa que lhe lembrava alguém.
Ele parou à sua frente e olhou demoradamente em seus olhos. Sem dizer uma só palavra, aproximou-se ainda mais, sorriu e respirou fundo. Levantou os braços, puxou-a para si e enlaçou seu corpo ao dele. Creusa retribuiu o abraço. Ficaram assim por alguns segundos, como se ambos precisassem daquele silêncio antes de qualquer palavra.
Quando se afastaram, continuaram se olhando. Ele falou com a voz embargada e os olhos marejados:
— Você não tem ideia… Esperei muitos anos por este momento. Procurei você por muito tempo!
Creusa permaneceu em silêncio.
— Obrigado por ter vindo. Tive muito medo de que não viesse.
Ela perguntou, com a voz trêmula:
— O senhor tem certeza?
Ele sorriu.
— Desde que olhei para você.
Creusa o olhou como se já o conhecesse havia muito tempo. Tocou-lhe o rosto e sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Não encontrou palavras. Apenas ficou ali, examinando demoradamente aquele rosto que tantas vezes imaginara e que, durante toda a vida, quisera conhecer.
Foi ela quem tomou a iniciativa de abraçá-lo novamente. Depois, entrelaçou uma das mãos à dele e o conduziu até um banco de uma pracinha em frente ao local onde haviam marcado o encontro.
Conversaram por algumas horas. Ele contou como conhecera Ludmila. Falou dos primeiros tempos, da gravidez e das circunstâncias que o fizeram deixar sua mãe. A vida naquela época, explicou, estava muito difícil. Contou também dos anos que passou no exterior e de como, quando retornou, tentou encontrar Ludmila. Já não conseguiu. Ela havia morrido, e ele não sabia onde Creusa estava.
Somente muitos anos depois teve notícias dela.
Enquanto falava, Creusa ouvia em silêncio. Às vezes interrompia para fazer uma pergunta. Outras vezes apenas o observava, como se tentasse reconstruir, com aquelas palavras, uma parte da própria história que lhe havia sido negada.
Em determinado momento, ele tirou do bolso da camisa um envelope e o entregou a ela.
Creusa o recebeu apreensiva. Abriu devagar. Dentro havia uma fotografia. Ludmila estava grávida.
Creusa ficou alguns segundos olhando para a imagem.
— Sou eu?
Ele sorriu.
— Sim. É você.
As lágrimas escorreram pelo rosto de Creusa. Ela tentou disfarçar a emoção, mas não conseguiu. O homem tomou suas mãos entre as dele e continuou falando.
Contou-lhe outras coisas sobre Ludmila, sobre a vida que levaram e sobre os anos em que estiveram separados. Falou das dificuldades, das tentativas que fizera para reencontrá-la e do tempo que passou sem saber onde ela estava. Creusa tinha muitas perguntas e, aos poucos, foi encontrando coragem para fazê-las.
Já no final do dia, quando a luz começava a desaparecer, ele tirou do bolso da calça outro envelope e o estendeu para ela.
— Trouxe isso também. É para você ter certeza.
Creusa segurou o envelope por alguns instantes sem abri-lo. Olhou para ele, depois para o envelope. Suspirou fundo.
Abriu.
Leu.
Permaneceu em silêncio.
As lágrimas voltaram a escorrer. Sorriu. Sentiu uma vontade imensa de abraçar aquele homem que estava diante dela. Durante toda a vida quisera conhecê-lo. Agora ele estava ali.
Ela o abraçou.
Conversaram por mais algum tempo. Creusa ainda tinha perguntas, muitas perguntas, e ele parecia disposto a respondê-las.
O tempo voou naquele dia. Quando se deu conta, já era noite alta. Estava tarde demais para voltar para casa.
***
No quarto, sentada na poltrona onde Fábio costumava ler antes de dormir, Emília permanecia desolada e inconformada com o que considerava a mais vil das traições. Ainda não conseguia acreditar no que havia descoberto. Resmungava entre dentes, como se precisasse repetir aquilo para convencer a si mesma de que realmente tinha acontecido:
— Ser traída por alguém que sempre apoiei incondicionalmente… Nunca poderia imaginar que ela fosse capaz de uma coisa dessas. É tudo muito cruel! É desalentador!
Fez uma pausa, respirou fundo e continuou, agora com a voz carregada de indignação:
— Como é que alguém que foi tirada da orfandade e recebeu todo o amor e carinho de uma família cristã, que a criou como se fosse uma filha, é capaz de cometer tamanha ingratidão? Oh, meu Deus do céu! Isso só pode ser obra do satanás!
Calou-se por alguns instantes. A raiva ainda fervilhava dentro dela. Levantou-se, caminhou pelo quarto e voltou a sentar.
— Como ela foi capaz de fazer isso comigo? Não tenho como aceitar que isso possa ter acontecido…
Emília passou as mãos pelo rosto. A tristeza dava lugar novamente à raiva. Pensou no marido, pensou na irmã caçula e sentiu o sangue ferver.
— Isso não vai ficar barato para nenhum dos dois. Ah, não vai mesmo!
Enquanto amaldiçoava o marido e a irmã, o telefone fixo, na sala de visitas, tocou.
Emília ouviu, mas não se mexeu. Pensou em atender. Desistiu. Não estava com cabeça para conversas e, naquele momento, não queria perder tempo com ligações que quase sempre não tinham importância.
O telefone voltou a tocar.
Ela continuou sentada na poltrona.
Tocou uma terceira vez.
Emília levantou-se, irritada, e caminhou até a sala resmungando todos os impropérios que conhecia. Pegou o telefone e, sem esconder a irritação, disse:
— Alô!
Do outro lado, uma voz masculina respondeu:
— Boa tarde! Aqui é do pronto-socorro. É da residência do senhor Fábio?
***
Emília entrou na unidade semi-intensiva acompanhada pela enfermeira. Assim que viu Fábio deitado na cama, sedado, sentiu o chão desaparecer sob os pés. Parou por alguns instantes junto à porta, sem conseguir avançar.
Fábio estava imóvel. Tinha os olhos fechados e o rosto pálido. Um fio de oxigênio passava sob seu nariz e alguns aparelhos ao lado da cama registravam, em silêncio, os sinais de sua vida.
— Ele está fora de perigo — explicou a enfermeira. — Está sedado por causa dos medicamentos e dos analgésicos. Provavelmente vai acordar dentro de uma hora.
Emília apenas assentiu.
Aproximou-se devagar. Ficou olhando para o marido sem saber o que fazer. Aquele homem que agora estava ali, indefeso e dependente dos aparelhos, era o mesmo que, poucas horas antes, ela havia condenado sem piedade. Lembrou-se das palavras que dissera, das acusações, da certeza com que o julgara.
Sentiu a garganta apertar. Tentou conter o choro, mas não conseguiu. As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto.
— Meu Deus… — murmurou.
Aproximou-se mais e segurou a mão de Fábio. Estava quente.
Ela apertou os dedos dele entre os seus e baixou a cabeça. As palavras voltaram uma a uma, como se alguém as repetisse dentro dela: Traidor. Ingrato. Isso não vai ficar barato!
Emília fechou os olhos.
Agora, diante daquele homem imóvel, já não tinha certeza de coisa alguma.
Apenas chorava.
***
Na manhã seguinte, Creusa levantou-se antes do amanhecer e pegou o primeiro ônibus para Brasília. Não via a hora de contar tudo a Emília. Estava radiante. Finalmente conhecera o pai. O exame de DNA não deixava nenhuma dúvida.
Chegou em casa eufórica. Queria dividir aquela alegria com as pessoas que mais amava, mas não encontrou ninguém. A casa estava vazia.
Estranhou. Emília não costumava sair sozinha enquanto Fábio estava trabalhando. O que poderia ter acontecido?
Foi de um cômodo a outro, procurando algum sinal que pudesse indicar onde Emília estava. Não encontrou nada. Voltou para a sala e ficou alguns instantes parada, sem saber o que fazer.
Esperaria Emília chegar ou ligaria para ela?
Relutou por alguns minutos. Havia apenas uma certeza: o que tinha para contar precisava ser dito pessoalmente. Não abriria mão da alegria de ver a surpresa no rosto de Emília quando lhe contasse que finalmente encontrara o pai.
Depois de alguns minutos, que pareceram uma eternidade, não se conteve. Pegou o telefone e ligou.
Chamou uma vez. Duas. Três.
Creusa insistiu.
Do outro lado da linha, finalmente, ouviu a voz de Emília.
— Onde você está?
Creusa começou a responder, mas percebeu que havia alguma coisa estranha na voz dela.
— O quê? Ele está bem?
Fez uma pausa, ouvindo o que Emília dizia.
— Chego já aí.
***
Creusa chegou ao hospital ainda sem conseguir compreender direito o que estava acontecendo. No susto, não perguntara a Emília o número do quarto onde Fábio estava. Foi até a recepção e encontrou uma fila. Entrou nela. Parecia que tudo conspirava contra sua vontade de chegar logo até Emília e Fábio. Não conseguia ficar parada. Mudava o peso do corpo de uma perna para outra, olhava para o relógio e respirava fundo. A fila, que normalmente teria parecido curta, naquela manhã parecia não ter fim.
Finalmente chegou sua vez. A recepcionista pediu um documento com foto. Creusa entregou. A mulher digitou algumas informações, olhando para o monitor, e depois ergueu os olhos:
— Por favor, senhora. Olhe para a câmera.
Creusa obedeceu. Em seguida, recebeu um adesivo, que deveria colar sobre a blusa, e foi orientada a digitar o CPF para liberar a roleta. Fazia tudo mecanicamente. Sua cabeça estava longe dali.
— Siga até o final do corredor. O elevador fica à esquerda. A senhora vai para o segundo andar. O quarto do seu Fábio fica à direita, assim que sair do elevador. É só seguir a numeração.
Creusa agradeceu e caminhou até o elevador. Apertou o botão e esperou. Os segundos pareceram longos demais. Quando a porta finalmente se abriu, entrou, apertou o botão do segundo andar e, antes mesmo que a porta fechasse, desistiu. Saiu e correu para a escada. Subiu os degraus de dois em dois. Quando chegou ao segundo andar, estava ofegante. Parou por alguns segundos, puxou o ar e procurou a numeração dos quartos.
228.
Encontrou a porta. Estava fechada. Ficou diante dela sem saber o que fazer. Bater? Procurar alguém? Esperar? Não teve paciência para nenhuma das opções. Pôs a mão na maçaneta e entrou.
Emília estava de costas, em pé diante da cama. Sobre a poltrona, ao lado da porta, estava a pasta que haviam retirado do carro. Nas mãos, Emília segurava a fotografia de uma pequena casa de campo.
Creusa parou na porta.
Fábio estava acordado e falava:
— … Então, foi por isso que saí cedo. Queria fazer uma surpresa. Já queria lhe mostrar o contrato de promessa de compra e venda assinado. É a casinha de campo que sempre sonhamos…
Emília se virou e pareceu levar um susto ao ver Creusa. Por alguns segundos, as duas apenas se olharam. Então Emília sorriu.
— Graças a Deus, ele está bem. Foi um grande susto, mas ele está bem. E você? O que aconteceu?
Creusa não respondeu. Seus olhos foram até Fábio e depois voltaram para Emília. A imagem dele deitado naquela cama, os aparelhos, o hospital, tudo o que imaginara no caminho pareceu, de repente, distante e irreal. Emília percebeu a confusão no rosto dela e se aproximou. Creusa também.
As duas se abraçaram.
Choraram.
Não havia mais raiva, acusação ou explicação possível naquele momento. Apenas aquele abraço apertado e demorado, como se ambas precisassem ter certeza de que a outra estava realmente ali.
Emília tentou falar, mas não conseguiu. Abraçou Creusa novamente e disse:
— Me perdoa.
Creusa afastou-se um pouco e olhou para ela.
— Do quê?
Emília respirou fundo. As lágrimas desciam pelo rosto.
— Eu condenei vocês sem uma única prova.
Creusa permaneceu em silêncio. Fábio observava as duas. Os três se entreolharam.
Creusa segurou a mão de Emília.
— Eu rasguei o bilhete que tinha escrito para você.
Emília ergueu os olhos.
Creusa continuou:
— Queria voltar para contar tudo. Queria ver a sua surpresa quando soubesse que finalmente encontrei meu pai.
Fez uma pausa, olhou para Fábio e depois voltou os olhos para Emília.
— E, se hoje eu encontrei o meu pai… foi porque, antes, eu encontrei uma mãe.
Emília levou a mão ao rosto. As lágrimas voltaram a cair. Abraçou Creusa e, desta vez, nenhuma das duas tentou dizer nada. Ficaram assim por alguns segundos, até que lentamente se afastaram.
Emília fechou os olhos e, quando voltou a falar, sua voz quase não passava de um sussurro:
— Eu também rasguei alguma coisa naquele dia.
Creusa estranhou.
— O quê?
Emília abriu os olhos e olhou para ela.
— Eu transformei meu medo em verdade.
Creusa não respondeu. Apenas segurou novamente a mão de Emília. Depois estendeu a outra até Fábio. Os três ficaram unidos pelas mãos.
Nenhuma palavra.
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João Régis Magalhães é autor de É da Natureza Humana, disponível em e-book na Amazon.com.br, e de Ana de Porangaba, atualmente com a edição impressa esgotada.

João Régis Magalhães
Jornalista, publicitário, escritor, mineiro de Belo Horizonte, com raízes no Ceará, mora em Brasília desde o século passado.
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